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31/07/2015

A importância das epígrafes



O processo de produção de um texto em prosa requer atenção a diversos recursos que utilizamos para a construção de uma obra perfeita - ao menos aos nossos olhos. Dentre esses recursos disponíveis em nossa paleta de cores literárias, lá estão as epígrafes. Esses texto pretende divagar um pouco sobre a função delas na narrativa.
Seria possível ao escritor conceber a epígrafe como uma espécie de termo acessório, visto que ela não chega a ser algo de presença obrigatória (realmente, em arte é muito difícil acreditar que algo tenha a obrigação de estar presente). Entretanto, o bom escritor pode fazer uso de uma epígrafe de forma que a desloque da condição de acessório para a de essencial à diegese. Conta-se que boa parte dos escritores ainda veem a epígrafe como um adorno, "cereja de bolo" ou algo do tipo, o que enfatizaria a nossa visão dela como termo acessório. Entretanto, é possível considerar tal recurso como indissociável da narrativa vigente, se levarmos em consideração os estudos de Wayne C. Booth, que dizem, não bem com essas palavras, que epígrafes, notas de rodapé (ao menos as do próprio autor ou mesmo de um personagem da trama), títulos, elementos de composição secundária fazem parte de uma "ótica" criada especificamente para aquela obra. Se levarmos em consideração esse ponto de vista, fica difícil não prestar atenção à importância de uma epígrafe, bem como de sua relação com os acontecimentos narrados.  
Sendo assim, a epígrafe ganha função que vai muito além de "capturar a atmosfera" da obra, podendo até servir de prolepse (antecipando eventos importantes que ainda serão apresentados ao leitor) ou ironizar um contexto ali exibido.
Alguém que leve em consideração esse tipo de interpretação textual tenderá a sempre buscar compreender a função estética de uma epígrafe específica. O autor, por sua vez, se sentirá forçado a pensar essa mesma função, o que abre um novo plano de diálogo entre autor, obra e leitor. Penso, por exemplo, na epígrafe de Deixe-me entrar, de John Lindqvist:

I never wanted to kill
I am not naturally evil.
such things I do
Just to make myself
more attractive to you.
have I failed?
Morrissey, Last of the famous international playboys.

Percebamos a relação intertextual entre a obra de Lindqvist e a epígrafe, retirada de uma canção do Morrissey. A ideia de matar para tornar-se mais atraente a quem amamos ganha dimensões diferentes ao considerarmos que Deixe-me entrar conta a história de um vampiro (as adaptações para o cinema são também bastante conhecidas). Não quero encher esse texto de spoilers, mas convido o leitor a examinar com mais cuidado a força que tem a epígrafe nessa narrativa. 
No mais, ao leitor, deixo aqui a sugestão de prestar mais atenção ao recurso estético de que falamos. Talvez, fosse divertido selecionar suas epígrafes preferidas. Já ao escritor, sugiro a observação minuciosa de seu texto, perguntando-se até onde é necessária uma epígrafe e, caso ela exista, que relações semânticas eu apresento a meus leitores a partir dela.

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