"Ascensão e queda": romance de estreia!

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24/04/2017

Do que eu falo quando falo em fantástico - PT1




A literatura fantástica está comigo há muito tempo. Tornei-me, inclusive, pesquisador desse tipo de história e, como consequência, o fantástico vira e mexe aparece em minha prosa. Entretanto, costumo perceber que muitas pessoas ainda se perdem frente ao fantástico, talvez pela diversidade de manifestações apresentadas nas artes ou mesmo pela diversidade de percepções dos mais variados artistas frente ao tema. Com base nisso, uma vez pensando em lançar uma coletânea de contos do tipo, resolvi devanear um pouco sobre o que entendo sobre isso, tanto para meu próprio estudo como para a reflexão do leitor que também seja entusiasta do assunto.

São vários os autores que estudaram o fantástico. Dentre eles, costumo priorizar dois por causa de suas linhas de pensamento distintas. Tzvetan Todorov, talvez o teórico mais conhecido sobre o assunto, acreditava que o fantástico fosse um gênero em que os personagens se deparam com algo que desafia as leis do real, projetam seu desconforto (muitas vezes associado a medo) aos leitores e a narrativa termina sem que se possa adotar uma explicação para o fenômeno. Por outro lado, Irene Bessière parte da mesma ideia de inexplicabilidade frente a um evento que rompe as normas da realidade, porém o tratando mais como um recurso narrativo como outro qualquer e não necessariamente um gênero. Outros estudiosos têm se debruçado sobre o assunto, mas é fato que eles sempre se amparam a ambas as perspectivas apresentadas. Sendo assim, recomendo uma lida nos dois citados para quem desejar mais se aprofundar sobre o tema.
Algumas pessoas não têm interesse tão forte a ponto de estudar teoria, o que requer muito conhecimento prévio e dedicação. Talvez essas pessoas se deliciem com leituras um pouco menos densas, como o depoimento de autores sobre sua visão sobre o fantástico. Apesar de definições bastante imprecisas, podem servir de ponto de partida mais prazeroso. Vale uma lida o artigo curtinho de Julio Cortázar, “Do sentimento do fantástico”, em seu famoso Valise de cronópio. Metafórico como sempre, o autor comenta o fantástico a partir da história de um cachorrinho que olha fixamente algo numa parede. Algo que nós não sabemos o que é. Gosto da metáfora por apresentar bem  a base da narrativa fantástica: falar sobre o que não sabemos o que é. Assim, temos uma narrativa que se ampara em dilemas, paradoxos e mistérios. Mas espere um momento, pensará o leitor, se a base do fantástico é não compreender o que acontece, o grande dilema da literatura brasileira (se Bentinho é ou não corno)  poderia ser tratado como um evento fantástico? Na verdade não, pois ainda precisamos de um elemento que surja na narrativa que seja capaz de desafiar a realidade, ou como costuma dizer David Roas, que seja capaz de desafiar a nossa noção de realidade, já que em tempos de pós-modernidade se torna impossível concebê-la como uma só.  Agora o que parecia difícil se torna ainda mais, já que o leitor deve concluir que se o fantástico se move através da nossa percepção do real, talvez o que seja fantástico para mim não o seja para quem vive em outra região ou outra época. Falando num português mais prolixo, o fantástico depende de nossa percepção do real tanto de forma sincrônica quanto diacrônica. Vejamos um exemplo: no século XIX, era possível encontrar artigos científicos relatando a combustão espontânea, ou seja, casos em que pessoas beberam todas e acabaram por isso pegando fogo sozinhas. Com os avanços nas pesquisas, hoje sabemos que isso tudo não aconteceu e muitos casos que pipocam por aí são facilmente desmascarados. Ou seja, hoje tal evento seria um acontecimento fantástico para nós, mas não desafiaria a realidade de séculos atrás.  O leitor então pode concluir que o fantástico é um gênero/recurso interdependente não só de sua estrutura, mas também da nossa relação com ele e o contexto em que ele se encontra - tal como ocorre com o erotismo, acredito eu.
Tendo introduzido estas primeiras noções sobre o tema, continuo o que tiro da minha visão sobre esses tão variados estudos e narrativas.
Até lá.


PS: Sim, o título deste artigo é inspirado em Haruki Murakami. 
PS2: Referências serão colocadas no final da série de postagens. 

28/03/2017

Entrevistando Bruno Ribeiro





Wander Shirukaya - Você lançou recentemente Febre de enxofre (Penalux, 2016), sua estreia no romance. Sentiu muita dificuldade em comparação ao gênero conto abordado em Arranhando Paredes (Bartlebee, 2014), seu livro anterior?

Bruno Ribeiro - A dificuldade independe de gêneros. Eu prefiro escrever romances. No conto é possível visualizar regras mais rígidas, ordem, estruturas firmes. Obviamente que dentro dessa rigidez ainda é possível transgredir, veja Borges, mas no romance é viável andar com o bicho sem coleira com mais facilidade. Eu escrevi a Febre de Enxofre como um sonâmbulo. Por exemplo, alguns leitores sublinharam trechos do livro em suas resenhas e eu me perguntava depois de lê-las: “Eu realmente escrevi isso?”

Acredito que escrever um conto como um sonâmbulo seja mais complicado.

Tem certo automatismo surreal na Febre de Enxofre que permitiu com que ele fosse livre, caótico, cheio de registros e tons distintos, algo que me agradou no resultado final. Não sei se todo esse pandemônio seria possível em um conto, pois ele precisa ser adestrado com maior regularidade, já o romance não. A força do conto está no final, do romance está no todo. O percurso é mais importante do que a chegada.

Na Febre de Enxofre, parafraseando um trecho do romance, eu queria ser “um bicho que busca a luz no centro da escuridão”. E para encontrar essa luz – uma busca eterna, pois não a encontrei – se fez necessário travar uma jornada incerta, longa e conflituosa; o tipo de jornada que se encaixa mais em um romance do que em um conto. E quando estou escrevendo, prefiro os embates pesados, os campos de guerra mais virulentos e exaustivos, a linguagem que permita diversas experimentações, e por conta disso opto pelo romance.

Voltando à dificuldade, não acho que escrever romances seja mais fácil do que escrever contos, pois escrever é sempre um troço duríssimo e que modifica totalmente o sujeito, seja ele escritor de conto, romance ou qualquer outro gênero.

Wander - Febre de enxofre também aborda a autoficção. Há algum receio seu em ser mal interpretado ao trabalhar com as fronteiras entre o verídico e o fictício?

Bruno - Esse termo “mal interpretado” não entra no meu processo de escrita. Quando decido abordar algum tema ou escolher certo tipo de linguagem ou procedimento na construção de um livro, penso na serventia deles na trama e no que quero passar. A interpretação, boa ou ruim, é algo que foge da minha alçada e não me preocupo com isso.

Eu precisava da autoficção porque o livro nasceu de um trauma e foi um ponto de partida obrigatório, não havia outra saída. A única forma de assumir as histórias que vivenciei foi passando-a para os outros. Entretanto, a autoficção neste livro está tão diluída que nem sei se é válido chamá-lo de um livro autoficcional. O delírio é tão grande na febre que ele come qualquer resquício de realidade. Febre de Enxofre é tudo, menos realista, ou qualquer sinônimo do real. É um real dentro de uma quitinete em terremoto constante. O livro engana o leitor. É um romance que mergulha em inúmeras formas e operações; imagino que a autoficção é só uma peça de um quebra-cabeça gigante.
O escritor Ben Lerner, autor de “Estação Atocha”, compartilha uma opinião interessante sobre a autoficção:
“"Há muita diferença entre um protagonista falando de si mesmo e um escritor que só fala de si mesmo. Há uma grande diferença entre descrever a autoabsorção, tema interessante e urgente, e simplesmente sucumbir a ela. E, claro, depende da qualidade do escritor: Montaigne falando sobre si mesmo é diferente de Paris Hilton falando sobre ela mesma.
Acho que certo grau de autorrefêrencia será sempre útil na narrativa. Não estou comprometido com a autoficção em geral. Apenas com o uso de material biográfico se sinto que me ajuda a construir um livro convincente e urgente.”
Outro escritor que me influenciou foi Michel Leiris e seu livro A Idade Viril. Termino a minha resposta com um trecho decisivo deste livro:
“Escrever um livro que representasse um ato foi, em suma, o objetivo que achei que devia buscar quando escrevi A idade viril. Ato em relação a mim próprio, pois ao redigi-lo eu pretendia elucidar, graças a essa formulação mesma, certas coisas ainda obscuras para as quais a psicanálise, sem torná-las inteiramente claras, havia despertado minha atenção quando a experimentei como paciente […] Ato, enfim, no plano literário, consistindo em mostrar o avesso dos mapas, em fazer ver em toda a sua nudez pouco excitante as realidades que formavam a trama mais ou menos disfarçada, sob aparências que se queriam brilhantes, de meus outros escritos. Tratava-se menos, aí, do que se convencionou chamar ‘literatura engajada’, e sim de uma literatura na qual eu tentava me engajar por inteiro.” 
A urgência, o ato e o risco deste "engajar por inteiro" me seguiram do começo ao fim da Febre de Enxofre.

Wander - Como tem sido a repercussão do livro?

Bruno - Boa. Melhor do que imaginei. Quando estou escrevendo não penso em repercussão. Escrevo e ponto. Mas devo dizer que o feedback que venho recebendo do livro está me deixando contente. Ando recebendo ótimas e elucidadas leituras da febre. A Editora Penalux está me dando um excelente suporte. É uma editora incrível. Já conquistei várias resenhas e críticas, de autores, booktubers, curiosos, críticos. Tá sendo falado em jornais, blogs, boca a boca, sites literários, etc. Enfim, o livro está rodando e até agora só escutei coisas boas sobre ele. Espero que continue assim.

Wander -  Sei um pouco sobre o processo de criação do romance que se deu como parte de seu mestrado em Escrita Criativa. Esse ramo de especialização das letras ainda é visto com muita desconfiança de um modo geral, até com certo preconceito. A que você acha que se deve essa desconfiança e o que proporia para suavizar seus efeitos?

Bruno - Essa desconfiança existe por causa da ignorância. Algumas pessoas que falam mal da Escrita Criativa não sabem o que é a Escrita Criativa.  “E tem como ensinar a escrever? E tem como ensinar a ser criativo?” Infelizmente, as pessoas ainda acham que ser criativo é um dom para poucos. Criatividade é labuta, exercício, busca, falha, caça, suor, esforço, apropriação, conflito. Não tem nada a ver com dom, pelo contrário. Em relação à literatura a coisa não muda. Muita gente pensa que só alguns abençoados pela deusa do Lirismo & Poiesis podem fazer literatura. É uma visão extremamente equivocada e pueril.

O ato da Escrita Criativa sempre existiu, só não tinha um nome. Trocar textos, revisar, pedir para alguém confiável ler e opinar, ler e opinar o texto de alguém, estudar, decifrar e desossar outros autores, estudar uma obra a fundo, escrever pra caralho, apagar, escrever mais, apagar, escrever, enfim, isso e muito mais fazem parte do eixo da Escrita Criativa, e são coisas que sempre existiram.

Afinal, para mim, escrever é como fazer um churrasco. Não podemos chegar lá e simplesmente jogar a carne na grelha. É preciso selecionar bem a carne. O corte. Utilizar corretamente o sal, pois colocar sal na carne parece ser a coisa mais fácil do mundo, mas não é. A quantidade de sal que se coloca nela pode definir se a carne vai prestar ou não. O sal é a linguagem e os procedimentos, a carne é a trama, o núcleo duro, o que você quer contar, e a grelha é a escrita, a ação, o fogo da palavra no papel. O excesso de grelha pode queimar a carne. O excesso pode destruir a sua obra.

Barthes dizia que o escritor talentoso é aquele que conhece os seus limites. Saiba até onde você pode ir, conheça o seu sinal vermelho e o obedeça. O bom escritor é aquele que sabe a hora de parar pra não deixar a carne queimar.  O meu mestrado de Escrita Criativa me ensinou isso e outras técnicas de churrasco.

Quanto a solucionar os problemas dos preconceituosos da Escrita Criativa, a única coisa que pode ser feita para suavizar isso é destruir a ignorância das pessoas pela raiz. Posso auxiliar nisso indicando um excelente texto sobre o assunto, escrito pelo amigo Tiago Germano: http://literatortura.com/2016/11/5-ideias-equivocadas-sobre-oficinas-literarias/

Enfim, fora essa ignorância, eu vejo também que muitos autores criticam a Escrita Criativa por pura canalhice ou para criarem um personagem de escritor badass-fodão que aprendeu a escrever nas ruas, na sarjeta, na bosta. Nego que faz marketing de escritor transgressor e força a barra até dizer chega. No caso dessa gente, só consigo rir, pois até para ser retardado tem limite. Mas enfim, cada criança brinca com o playground do seu gosto.

Wander -  Outra área por onde você caminha é a literatura de horror.  Ouso dizer que o gênero não é tão bem difundido no país, ao menos no que diz respeito aos escritores. Já sofreu algum tipo de problema por escrever coisas desse tipo?

Bruno - Nunca sofri nada por causa das minhas escolhas, pois eu banco todas elas. Sério, não é arrogância, é só ter culhão pra bancar o que você faz. Obviamente que vender um romance como a “ressignificação do vampirismo” é um risco. O mito do vampiro tornou-se mercadoria literária da pior qualidade nos últimos anos, mas eu precisava dela. Mesma coisa com a autoficção. Muitos podem dizer: “Um livro brasileiro autoficcional com vampiros? Cruzes!”, mas eu precisava trabalhar com esses temas e não podia fugir deles. O leitor que não quiser ler o meu livro por causa disso, saiba que é um leitor que fico muito feliz de não ter. O terror inicial desse livro mora em Fausto, de Goethe. O meu intuito a priori foi criar uma releitura dessa obra. Com o passar das escritas, outras influências foram entrando, mas eu nunca perdi o meu ponto de partida: Fausto. O horror entra também como a metáfora de um amor destruído. É um livro de amor, perda, mas também um livro sobre a origem da criação literária e poética. Para mim, é um livro “do contra”. Eu geralmente gosto de ser contra todos, pode parecer infantil isso, mas a minha literatura sempre parte da negação e do conflito. Para conceber essa proposta, busquei um dos períodos que mais me influenciam e que visualizo uma explosão criativa intensa: o século XIX. Dentro deste período, recortei o romantismo e suas influências. Fui dos simbolistas até os decadentistas e mergulhei em suas obras. Fui atrás de Mary Shelley e Bram Stoker, entrei no grotesco até me perder, e o resultado foi a febre. Para alguns leitores, o livro é de terror. Eu acho isso maravilhoso, pois é uma leitura que faz com que eu avalie o romance de outra forma, já que eu nunca pensei nele como um livro de terror, mas realmente é possível lê-lo neste registro. A magia dos leitores reside nisso: ressignificar a obra.

Wander - Música também é algo frequente na sua literatura. Como ela te influencia? Estariam os músicos em pé de igualdade com suas influências literárias?

Bruno - Acredito que sim. A música sempre esteve presente nos meus textos. Seja citando-as ou como referência direta. No caso da Febre de Enxofre eu cito músicas e utilizo dos seus recursos na linguagem. Um dos protagonistas, Manuel di Paula, é DJ. Aprofundei-me bastante no mundo da música eletrônica experimental por causa dele. Até montei uma banda com o escritor gaúcho Matheus Borges, chamada Creepypasta, por conta dessa minha pesquisa.
Fora a música eletrônica, o punk rock também me influenciou. Eu queria criar um ritmo no romance que fizesse jus ao título. Uma febre demoníaca com parágrafos longos e pouquíssimas pausas para respiração. A primeira coisa que veio na minha cabeça, obviamente, foi o punk. Depois de muita reflexão, veio não só um álbum, mas um clássico da insanidade: o álbum Fun House da banda americana The Stooges. As faixas deste álbum foram gravadas ao vivo, sequenciais, sem edições no processo e com nenhum ou poucos overdubs. A banda era conhecida na época pelas performances apocalípticas nos shows ao vivo e por isso Fun House foi gravado dessa forma. Como conceber uma escritura “ao vivo” foi um dos meus questionamentos enquanto escrevia. Uma literatura que pudesse alcançar um nível próximo da escrita automática, mas que fosse sóbria e consciente dos seus atos. Um dilúvio de raiva e potência literária e musical. Um Borges com pico na veia. Um Saramago com crise de abstinência. Iggy Pop poeta. Etc.
Se eu consegui fazer isso, só os leitores poderão dizer.

Wander - O quem vem de novidade por aí?

Bruno - No começo do ano soltei na Amazon o meu romance Glitter, em ebook. O livro foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2016 e do Prêmo Kindle. Fora isso, vou participar de várias antologias e estou organizando duas: uma com a editora argentina Outsider e uma sobre o Horacio Quiroga. Em breve volto a ministrar os meus cursos de Escrita Criativa e acho que até o final do segundo semestre sai um quadrinho que roteirizei sobre o poeta Castro Alves, pela editora Patmus. Boas coisas estão vindo por aí.

Wander - Deixe uma mensagem aos leitores do blog.

Beijos e abraços no coração de todos. Comprem a Febre de Enxofre aqui: http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=497


Amém.

13/03/2017

Entrevistando Camillo José



Cá estou eu para a entrevista da semana com o escritor pernambucano Camillo José. Sem mais delongas, vamos ao papo que rolou pelo chat do facebook na noite de 12/03. Enjoy!



Wander Shirukaya - Vamos fazer uma breve apresentação de você aos leitores do blog. Quem é Camillo José?

Camillo José - Olá! Certo, então: Camillo José é, putz, calma [risos]. Bom, Camillo José é um dos organizadores do selo editorial La Bodeguita, autor de alguns livros de poemas, sendo os mais recentes Apneia-resort, Xinforimpola, [about: blank] e Os próximos 30min não tem propaganda graças ao seguinte patrocinador (todos pela Bodeguita) e o mais antigo Chave de espadas, publicado pela Editora Patuá em 2013; mas pra mim mesmo Camillo José é uma pessoa aleatória que passa a maior parte do tempo jogando arcade e ouvindo math rock [risos].



Wander - Math rock? Massa! Tô ouvindo aqui Crystal Fairy, projeto novo do Omar Rodriguez-López. É bonzinho, mas ainda sou viúva do Mars Volta [risos]. Pelo que conheço de você, a música é muito presente na tua literatura, não? Isso sem falar na estética vaporwave, que vai mais além [da música]. 

Camillo - [risos] Pior que eu também, fiquei animado com a volta do At the drive-in e gosto pra caralho da carreira solo do Omar, mas com o Mars Volta rola um apego mais íntimo.



Wander - Pois é. Como música e a cultura vaporwave se relacionam com sua literatura?

Camillo -  Diria que [a música] é mais presente que a própria literatura, no sentido de que minhas referências quase sempre vêm da música, seja no uso de epígrafes, nas referências dentro dos textos ou no fato de quase não conseguir escrever em silêncio. Inclusive há um poema no meu próximo livro que faz referência a uma música do Mars Volta (Inertiatic esp), numa divisão da obra que coincidentemente se chama The haunted jukebox [risos]. Gosto de pensar o arranjamento dos poemas no livro como uma espécie de mixtape, sabe? Às vezes até chego a criar playlists no youtube pra anexar aos livros. A estética vaporwave, como tu disse, aparece também em relação à música, mais ainda mais nas questões de apropriação e ressignificação, embora eu escute bastante playlists do gênero durante a produção dos livros.



Wander - Que massa, meu livro novo terá influência de Mars Volta também. Mas a entrevista não é sobre mim, melhor retomar [risos].

Camillo – [risos] Eu vi num trecho do teu [livro] que tu cita Alcest, é uma banda que gosto muito também, me fez abrir um sorrisão quando li.


Wander - Quais as suas bandas preferidas, maiores influências, etc.?

Camillo - Pelo lado mais pessoal, minha maior influência é sem dúvida o John Frusciante, tanto pelos sons atmosféricos que ele consegue alcançar com a carreira solo quanto pela época que esteve com os Chili Peppers – o que às vezes é um pouco complicado, porque meu estilo de tocar guitarra acaba soando muito semelhante ao dele. Mas sobre a relação música e literatura, minhas principais influências são artistas que, apesar de não estarem diretamente ligados ao vaporwave, fazem uso constante de referenciações e ressignificações em suas composições, desde os insights nas letras dos Alt-j até os samples inusitados do Kanye West. Mas é algo que vai variando, como disse, ultimamente tenho ouvido muito math rock e isso tem me influenciado de uma forma diferente e sou muito inquieto, daí vivo procurando banda nova pra ouvir e sempre me perco no meio de tanta coisa boa. No vaporwave minhas maiores referências são a Vektroid (responsável pelo Macintosh Plus, creio que o projeto mais popular do gênero) e o Trevor Something; a Vektroid por ser basicamente uma espécie de porta de entrada pra quase todo mundo que vem a se interessar por essa estética, o Trevor Something pela questão do anonimato: o cara já tá nessa coisa toda há anos e até hoje ninguém sabe quem ele é, gosto dessa coisa toda, desse desapego que os artistas vaporwave geralmente têm diante do fator popularidade, é algo que tento levar pras minhas experiências com música e literatura.



Wander – E na literatura? Algum poeta ou ficcionista que lhe tenha virado a cabeça?



Camillo - Com a literatura o meu primeiro grande plot twist foi com Roberto Piva, porque eu sempre fui uma pessoa muito imagética, mas jamais havia tido contato com uma literatura que explorasse a imagem da forma como ele faz, foi um baque imediato e irreversível, não dava pra ler Piva e continuar escrevendo da mesma forma, me deixou completamente desgraçado da cabeça. Depois de um ou dois anos totalmente imerso na escrita do Piva, eu conheci o Delmo Montenegro e aí o desgraçamento ficou completo [risos], porque a poesia de Delmo consegue trazer uma imagética tão carregada quanto a do Piva, com o adicional das referências undergrounds audiovisuais que eu já flertava, mas com um receio bobo de estar "avacalhando" demais; daí quando eu li Delmo e vi ele fazendo tudo aquilo bateu uma sensação reconfortante de pertencimento e eu finalmente pude tocar o foda-se e escrever da forma que achava melhor [risos] daí isso tudo coincidiu com as imersões iniciais no vaporwave e foi o nariz que faltava no Frankenstein.



Wander - Ganhaste o Prêmio PE. Qual foi a sensação? Já tem sentido algum efeito dele?

Camillo - Então, foi algo bem inusitado, e a ficha só tá caindo agora, porque o lançamento do livro já é mês que vem [risos]. O livro que inscrevi no prêmio era a coisa mais experimental que eu havia feito até ali e minha preocupação maior sinceramente nem era o prêmio em si, mas ter uma chance de publicá-lo, porque tinha quase certeza de que, se não fosse com o prêmio, seria muito raro uma outra editora topar lançar algo tão estranho como A dakimakura flutuante e não dava pra publicar com a Bodeguita porque por enquanto editamos apenas livros de curta extensão, daí era meio que um tudo ou nada, então minha maior sensação foi de alívio por não ter que me frustrar tentando convencer outras editoras a publicá-lo [risos]. Sobre os efeitos, ocorre um delay comigo que desde 2013 quando alguém vem falar do meu primeiro livro eu fico totalmente sem reação, aquele clichê de ver um filho andando e não conseguir acreditar que aquele filho é teu. Quando perguntam sobre o Dakimakura eu tento falar mais sobre o livro em si do que sobre o fato de ter ganhado o prêmio, embora tenha consciência de toda a carga dessas circunstâncias.


Wander - Pernambuco é apontado como o estado com o maior número de cartoneras do país e possui uma quantidade expressiva de produção independente, inclusive você é também editor. Como esse contexto tem contribuído para a sua carreira e de outros autores da região?

Camillo - creio que essa coisa da busca por independência editorial é um movimento que reflete não só a escassez e falta de acessibilidade das editoras "oficiais" ativas por aqui, mas também - e talvez principalmente - o ritmo como tudo vem acontecendo dentro desses grupos, o que pode resultar em colheitas frutíferas, mas também causar certos alagamentos com a mesma proporção. Digo, mais da metade da literatura que tenho lido nos últimos anos vem de produções à margem do mercado editorial, produções consistentes e à frente do "centro" em muitos quesitos. Entretanto, não dá pra negar que grande parte das problemáticas que permeiam as questões de "massividade" acabam intensificados pela lógica do "faça você mesmo" - no sentido de que às vezes a distorção da coisa toda resulta num bocado de autores recheados de convicções, alheios a críticas e munidos de um ideal egoísta de independência, o que também explica haver mais autores que leitores: o cara escreve uns poemas, publica um zine/livro por conta própria, vai pra sarau, se auto-promove; mas não faz a mínima ideia do que tá sendo produzido ao redor - ou pior, só lê/compra outras publicações se houver uma mão dupla invisível guiando toda a diplomacia dessas situações. Daí às vezes essa coisa de usar a independência como argumento pra validar qualquer coisa que se escreve acaba sendo um tiro pela culatra, mas não dá pra negar que há uma galera muito foda emergindo disso tudo.


Wander - Para terminar, deixe uma mensagem aos leitores do blog e obrigado pela entrevista. Gostei muito do papo!

Camillo - Eu agradeço pelo convite, foi uma conversa muito agradável e espero que eventualmente possa se estender para fora da internet. Minha mensagem é: bebam bastante água e acreditem no coração das cartas, o resto é literatura.

Foto: Jan Ribeiro.


 
 

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