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13/03/2017

Entrevistando Camillo José



Cá estou eu para a entrevista da semana com o escritor pernambucano Camillo José. Sem mais delongas, vamos ao papo que rolou pelo chat do facebook na noite de 12/03. Enjoy!



Wander Shirukaya - Vamos fazer uma breve apresentação de você aos leitores do blog. Quem é Camillo José?

Camillo José - Olá! Certo, então: Camillo José é, putz, calma [risos]. Bom, Camillo José é um dos organizadores do selo editorial La Bodeguita, autor de alguns livros de poemas, sendo os mais recentes Apneia-resort, Xinforimpola, [about: blank] e Os próximos 30min não tem propaganda graças ao seguinte patrocinador (todos pela Bodeguita) e o mais antigo Chave de espadas, publicado pela Editora Patuá em 2013; mas pra mim mesmo Camillo José é uma pessoa aleatória que passa a maior parte do tempo jogando arcade e ouvindo math rock [risos].



Wander - Math rock? Massa! Tô ouvindo aqui Crystal Fairy, projeto novo do Omar Rodriguez-López. É bonzinho, mas ainda sou viúva do Mars Volta [risos]. Pelo que conheço de você, a música é muito presente na tua literatura, não? Isso sem falar na estética vaporwave, que vai mais além [da música]. 

Camillo - [risos] Pior que eu também, fiquei animado com a volta do At the drive-in e gosto pra caralho da carreira solo do Omar, mas com o Mars Volta rola um apego mais íntimo.



Wander - Pois é. Como música e a cultura vaporwave se relacionam com sua literatura?

Camillo -  Diria que [a música] é mais presente que a própria literatura, no sentido de que minhas referências quase sempre vêm da música, seja no uso de epígrafes, nas referências dentro dos textos ou no fato de quase não conseguir escrever em silêncio. Inclusive há um poema no meu próximo livro que faz referência a uma música do Mars Volta (Inertiatic esp), numa divisão da obra que coincidentemente se chama The haunted jukebox [risos]. Gosto de pensar o arranjamento dos poemas no livro como uma espécie de mixtape, sabe? Às vezes até chego a criar playlists no youtube pra anexar aos livros. A estética vaporwave, como tu disse, aparece também em relação à música, mais ainda mais nas questões de apropriação e ressignificação, embora eu escute bastante playlists do gênero durante a produção dos livros.



Wander - Que massa, meu livro novo terá influência de Mars Volta também. Mas a entrevista não é sobre mim, melhor retomar [risos].

Camillo – [risos] Eu vi num trecho do teu [livro] que tu cita Alcest, é uma banda que gosto muito também, me fez abrir um sorrisão quando li.


Wander - Quais as suas bandas preferidas, maiores influências, etc.?

Camillo - Pelo lado mais pessoal, minha maior influência é sem dúvida o John Frusciante, tanto pelos sons atmosféricos que ele consegue alcançar com a carreira solo quanto pela época que esteve com os Chili Peppers – o que às vezes é um pouco complicado, porque meu estilo de tocar guitarra acaba soando muito semelhante ao dele. Mas sobre a relação música e literatura, minhas principais influências são artistas que, apesar de não estarem diretamente ligados ao vaporwave, fazem uso constante de referenciações e ressignificações em suas composições, desde os insights nas letras dos Alt-j até os samples inusitados do Kanye West. Mas é algo que vai variando, como disse, ultimamente tenho ouvido muito math rock e isso tem me influenciado de uma forma diferente e sou muito inquieto, daí vivo procurando banda nova pra ouvir e sempre me perco no meio de tanta coisa boa. No vaporwave minhas maiores referências são a Vektroid (responsável pelo Macintosh Plus, creio que o projeto mais popular do gênero) e o Trevor Something; a Vektroid por ser basicamente uma espécie de porta de entrada pra quase todo mundo que vem a se interessar por essa estética, o Trevor Something pela questão do anonimato: o cara já tá nessa coisa toda há anos e até hoje ninguém sabe quem ele é, gosto dessa coisa toda, desse desapego que os artistas vaporwave geralmente têm diante do fator popularidade, é algo que tento levar pras minhas experiências com música e literatura.



Wander – E na literatura? Algum poeta ou ficcionista que lhe tenha virado a cabeça?



Camillo - Com a literatura o meu primeiro grande plot twist foi com Roberto Piva, porque eu sempre fui uma pessoa muito imagética, mas jamais havia tido contato com uma literatura que explorasse a imagem da forma como ele faz, foi um baque imediato e irreversível, não dava pra ler Piva e continuar escrevendo da mesma forma, me deixou completamente desgraçado da cabeça. Depois de um ou dois anos totalmente imerso na escrita do Piva, eu conheci o Delmo Montenegro e aí o desgraçamento ficou completo [risos], porque a poesia de Delmo consegue trazer uma imagética tão carregada quanto a do Piva, com o adicional das referências undergrounds audiovisuais que eu já flertava, mas com um receio bobo de estar "avacalhando" demais; daí quando eu li Delmo e vi ele fazendo tudo aquilo bateu uma sensação reconfortante de pertencimento e eu finalmente pude tocar o foda-se e escrever da forma que achava melhor [risos] daí isso tudo coincidiu com as imersões iniciais no vaporwave e foi o nariz que faltava no Frankenstein.



Wander - Ganhaste o Prêmio PE. Qual foi a sensação? Já tem sentido algum efeito dele?

Camillo - Então, foi algo bem inusitado, e a ficha só tá caindo agora, porque o lançamento do livro já é mês que vem [risos]. O livro que inscrevi no prêmio era a coisa mais experimental que eu havia feito até ali e minha preocupação maior sinceramente nem era o prêmio em si, mas ter uma chance de publicá-lo, porque tinha quase certeza de que, se não fosse com o prêmio, seria muito raro uma outra editora topar lançar algo tão estranho como A dakimakura flutuante e não dava pra publicar com a Bodeguita porque por enquanto editamos apenas livros de curta extensão, daí era meio que um tudo ou nada, então minha maior sensação foi de alívio por não ter que me frustrar tentando convencer outras editoras a publicá-lo [risos]. Sobre os efeitos, ocorre um delay comigo que desde 2013 quando alguém vem falar do meu primeiro livro eu fico totalmente sem reação, aquele clichê de ver um filho andando e não conseguir acreditar que aquele filho é teu. Quando perguntam sobre o Dakimakura eu tento falar mais sobre o livro em si do que sobre o fato de ter ganhado o prêmio, embora tenha consciência de toda a carga dessas circunstâncias.


Wander - Pernambuco é apontado como o estado com o maior número de cartoneras do país e possui uma quantidade expressiva de produção independente, inclusive você é também editor. Como esse contexto tem contribuído para a sua carreira e de outros autores da região?

Camillo - creio que essa coisa da busca por independência editorial é um movimento que reflete não só a escassez e falta de acessibilidade das editoras "oficiais" ativas por aqui, mas também - e talvez principalmente - o ritmo como tudo vem acontecendo dentro desses grupos, o que pode resultar em colheitas frutíferas, mas também causar certos alagamentos com a mesma proporção. Digo, mais da metade da literatura que tenho lido nos últimos anos vem de produções à margem do mercado editorial, produções consistentes e à frente do "centro" em muitos quesitos. Entretanto, não dá pra negar que grande parte das problemáticas que permeiam as questões de "massividade" acabam intensificados pela lógica do "faça você mesmo" - no sentido de que às vezes a distorção da coisa toda resulta num bocado de autores recheados de convicções, alheios a críticas e munidos de um ideal egoísta de independência, o que também explica haver mais autores que leitores: o cara escreve uns poemas, publica um zine/livro por conta própria, vai pra sarau, se auto-promove; mas não faz a mínima ideia do que tá sendo produzido ao redor - ou pior, só lê/compra outras publicações se houver uma mão dupla invisível guiando toda a diplomacia dessas situações. Daí às vezes essa coisa de usar a independência como argumento pra validar qualquer coisa que se escreve acaba sendo um tiro pela culatra, mas não dá pra negar que há uma galera muito foda emergindo disso tudo.


Wander - Para terminar, deixe uma mensagem aos leitores do blog e obrigado pela entrevista. Gostei muito do papo!

Camillo - Eu agradeço pelo convite, foi uma conversa muito agradável e espero que eventualmente possa se estender para fora da internet. Minha mensagem é: bebam bastante água e acreditem no coração das cartas, o resto é literatura.

Foto: Jan Ribeiro.


 
 

06/03/2017

Entrevistando Anna Apolinário




 
Conversei esta semana com a paraibana Anna Apolinário, que lançou recentemente Zarabatana (Patuá, 2016), seu terceiro livro. Batemos um papo sobre poesia, feminismo e muito mais. Confiram!  


Wander Shirukaya - Há pouco tempo você lançou Zarabatana, seu terceiro livro de poemas, em uma editora de circulação nacional. Como tem sido essa experiência e como vem sendo a repercussão do novo trabalho?


Anna Apolinário - Zarabatana é resultado de um minucioso processo de amadurecimento na escrita, costumo pensar num livro como um filho amado e esperado, e este, em particular, veio de uma forma muito especial, quase ritualística. Fiquei bem satisfeita com o trabalho de edição da Patuá, da capa ao colofão, é um livro cheio de detalhes que o tornam uma experiência literária singular. A obra tem sido bem acolhida e tem conquistado seus leitores, é um processo a longo prazo, e espero continuar colhendo os bons frutos deste trabalho.

Wander - Percebo (não sei se é equívoco meu) que muitas autoras da contemporaneidade tem escolhido o corpo como um dos temas de sua poesia, acredito que a sua também siga em partes essa tendência. Por que a questão do corpo se apresenta tão importante na sua poesia, na poesia de outras escritoras de sua geração?

Anna - Corpo, vida, amor, metalinguagem, são temas muito trabalhados em literatura, por homens e mulheres. Cada autor trabalha conforme sua subjetividade, seu arcabouço linguístico. Gosto de tratar dos temas de uma maneira diferente do que já foi feito, tanto já foi escrito, e se for para fazê-lo, que seja algo minimamente novo, esse é sempre o grande desafio. E o corpo, naturalmente, está presente em minha obra, no Zarabatana, por exemplo, os poemas exalam uma força corpórea, incisiva, carnal, visceral, ali tudo incandesce, é sinestésico, numa espécie de grimório, que evoca/invoca poderes ancestrais do sagrado feminino e da poiesis. Acredito que o uso dos temas nas obras, tem sempre uma intencionalidade, é uma maneira de fortalecimento do discurso. Mulheres, hoje, escrevem sobre o que quiser, e é bonito observar que muitas escritoras desenvolveram seu estilo, e o afirmam sem medo em seus textos.

Wander - Em tempos que o discurso feminista ganha mais espaço, como tem sido a vida de uma autora em um meio que privilegia a produção artística masculina? Já se sentiu discriminada em alguma ocasião nesse meio?

Anna - O meio literário é predominantemente machista, isso é gritante e lamentável. Vejo homens exaltando/comentando/resenhando livros de outros homens, prestigiando os lançamentos, é uma “camaradagem” patética.  Aqui na Paraíba, vejo autores
 que organizam eventos e convidam apenas homens (escritores e professores) para palestrar e ministrar oficinas, para falar de poesia, resistência cultural, eles falam, é tudo lindo, mas esquecem que também estão alimentando a segregação e a cultura misógina. Mulheres escrevem e querem ser lidas, querem fazer parte do meio, ajudar a formar leitores, movimentar a cena literária. Muitos criticam o feminismo, rotulam de histeria, mas o discurso feminista existe por causa das atitudes e pensamentos dos homens, é uma reação causada por um ação opressora, temos voz e força para questionar, é preciso quebrar esse círculo vicioso que se estabeleceu.

Wander - O que sugeriria para suavizar eventuais efeitos negativos desse contexto machista?

Anna - Os homens precisam consumir mais conteúdo produzido por mulheres, seja literatura, música, cinema, muitos tentam ignorar essa produção, talvez por receio de ter suas próprias obras ofuscadas, o desejo de ser dono do palco é mais forte, porém é preciso também saber ser plateia, no meio literário os egos são gigantescos, penso que isso é um desperdício de tempo e vida. Mas o fato é que há mulheres escrevendo e publicando, e no fim das contas, o que deveria prevalecer é a arte, a boa literatura, acima de questões de gênero ou rivalidades fúteis.

Wander -  Que autores você admira e que acredita que sejam importantes na sua formação como escritora?

Anna - São muitos, destacaria Herberto Helder, Roberto Piva, Sylvia Plath, Hilda Hilst, Murilo Mendes e Joyce Mansour, estes me são essenciais.

Wander - Recentemente fizeste tua estreia na prosa com um conto na antologia organizada por Lizziane Azevedo e Letícia Palmeira, Ventre Urbano. Achei um projeto muito interessante para conhecer novas facetas da produção literária paraibana. Você gostou da experiência? Pretende investir mais no gênero para expandir seu leque de vivências no campo das artes?

Anna - Sim, Ventre Urbano é um projeto que admiro, gosto muito de fazer parte dele. É uma iniciativa pioneira, de resistência num meio literário predominantemente masculino. É um livro em que todas escrevemos livremente, sem temas, um importante registro da produção literária contemporânea das mulheres paraibanas. Após anos escrevendo poesia, fui convidada a publicar um conto para a antologia, abracei com alegria o desafio, e o resultado tem sido positivo. Espero escrever e publicar mais em prosa, no porvir, é sempre bom se reinventar e se arriscar por outras veredas.

Wander - O que vem por aí? Quais os projetos para esse futuro próximo?

Anna - Um livro em prosa, estou trabalhando para isso, mas não tenho previsão de quando sairá. Por enquanto sigo divulgando meus livros publicados e escrevendo para o projeto que participo (Escritoras Suicidas).

Wander - Deixe uma mensagem aos seus leitores e leitores aqui do blog. Desde já, agradeço sua participação.

Anna - Agradeço o convite, e a mensagem é: Fora Temer!




27/02/2017

Entrevistando Enoo Miranda


 
Começando nova temporada de entrevistas aqui no blog, conversei um pouquinho com Enoo Miranda. Poeta e professor na cidade de Nazaré da Mata - PE, Enoo é figurinha carimbada em intervenções poéticas e manifestações culturais da região. Falamos um pouco sobre o fazer poético em tempos de crise. Confiram.



Wander Shirukaya - A produção artística atual, a meu ver, ainda parece perdida frente ao período turbulento que nosso país tem vivido. Diante disso, muitos autores ainda preferem se abster de comentar o assunto. Diferente deles, você tem dado sua cara a tapa, se manifestado com veemência tanto em eventos, saraus e intervenções artísticas como no discurso encontrado na sua poesia. Você teme que isso possa ter algum impacto negativo? Você acha importante o posicionamento do autor frente a problemas como os da atualidade?

Enoo Miranda - Sobre temer um impacto negativo a resposta é não, e em relação à pergunta se há importância no posicionamento (político? espiritual?), sem sombra de dúvida, sim. O escritor, assim como o cineasta, o caixa de banco, o cobrador de ônibus, o artesão, o pintor - de telas ou de muros, vide João Doria e o Galo da Madrugada do carnaval 2017 -, mas principalmente o escritor, deve ser um agente político, já que literatura que se lê, atualmente, entretém em segundo plano. Você vê, a euforia desta semana entre o pessoal "do meio" literário foi o discurso inflamado do Raduan Nassar contra o atual governo federal, durante recebimento do Prêmio Camões. Maravilha, vindo de um quase ermitão midiático que escreveu pra caralho, isso parece bom. Já hoje pela manhã o Cláudio Willer postou em conta no Facebook um relato sobre o mesmo Raduan Nassar e sua abstenção quanto aos abusos do regime militar de 64, afirmando que o então premiado chegou até mesmo a sustentar a ideia de que não houve censura de livros durante o período ditatorial. Ou seja, cedo ou tarde, tudo é cobrado.

Wander -  Você também participou de eventos nas ocupações da UPE de Nazaré da Mata no fim do ano passado. Como foi essa experiência?

Enoo - Divertida e marcante. É muito bom poder fazer algo pelo lugar de onde você veio ou pelo qual se sente pertencido. Aquele foi o campus em que me graduei em Letras, na cidade onde faço questão de viver. Na ocasião das ocupações em protesto à PEC 55, eu mesmo fiz críticas negativas à forma como as ações durante a paralisação estava sendo tocada pelos alunos, mas creio que a nossa passagem por lá somou em termos de discussão política e de quebra ainda serviu pra instigar alguns poetas de gaveta.

Wander - Conheço o seu Papel de pegar mosca, coletânea de haicais. Por que a preferência por formas curtas? Pretende fazer uso de outras estruturas poéticas mais para o futuro?

Enoo - Creio que o uso de uma forma curta no Papel de pegar mosca tenha a ver diretamente com o que eu descubro como meu processo de criação. Na maioria das vezes um texto me surge a partir de uma única sentença, ou de um único som, ou de uma única imagem... então o que orbita em torno dessa ideia primeira pode acabar se estendendo mais ou menos, a depender do que se queira falar e da circunstância em que se queira utilizar o texto. Em recital, por exemplo, o haicai não funciona tão bem. Fica aquela sensação retornando do público de "já acabou?". Na maioria dos casos opto realmente por estruturas mais estendidas e deve ser assim por algum tanto.

Wander - Participaste também do Recita Mata Norte, projeto que se circulou as escolas da Mata Norte Pernambucana no final de 2016. Fale um pouco do projeto e de que forma ele contribui para a formação de leitores.

Enoo - Sou professor por formação e acredito veementemente que a leitura pode desempenhar um papel importantíssimo na vida das pessoas. Por outro lado, sou cético quanto à eficácia do sistema público educacional enquanto resultado do que parece ser, cada vez mais, a tentativa de tornar as escolas plataformas de políticas eleitorais. Mais precisamente no estado de Pernambuco, onde o programa de ensino integral - do qual sou funcionário contratado - é a menina dos olhos do governo do PSB, muito se fala em educação cidadã. Formar o aluno em sua totalidade. Mas não forma. Meus alunos têm aula sobre Romance de 30 mas não sabem quem é Glauber Rocha. Nunca leram Charles Bukowski. Querem tirar título de eleitor e votar em Jair Bolsonaro. Não escutaram nem o disco de Nal Caboclo, que é artista da terra. Ou seja, algo falha nessa proposta de integralização. O Recita Mata Norte, de certa maneira, sana um pouco desse déficit curricular da educação, pois aproxima o escritor de um público em potencial. A troca de informação a respeito da confecção dos livros no caso das publicações independentes, estas que afinal são maioria entre os integrantes do grupo que participou do projeto, o espanto velado quando algum texto falado traz um palavrão e a consequente dessacralização do poeta, todas essas coisas acabaram cativando os estudantes que estavam atentos às nossas apresentações e acho que a experiência pode gerar frutos mais adiante.

Wander - Falando em formação de leitores, alguns colegas se queixam de que o público tem diminuído e, muitas vezes, se mostram “vencidos”. Você concorda que haja diminuição do público leitor e, se sim, como o autor pode contribuir para reverter esse processo?

Enoo - Não sei dizer com certeza se há diminuição de público leitor como vem sendo lamentado há algum tempo. Talvez tenha diminuído o número de público enquanto pessoa que compra o objeto livro, mas talvez até aumentado o número de leitor. E aí já é um problema de ordem mercadológica, não literária. O que eu imagino é que o tipo de leitor tenha mudado. Agora ele se considera um vencedor por ter conseguido chegar à última linha do que nas redes sociais se convencionou chamar de "textão". Proust se contorce, mas funciona. Nesse sentido, o escritor que quer que seu livro chegue até alguém, já deve ter entendido mais ou menos o caminho: faz barraquinha de venda, troca uma ideia e chama pra uma cerveja. O artista marxista é necessário.

Wander - Pernambuco é apontado como o estado com o maior número de cartoneras do país e possui uma quantidade expressiva de produção independente. Como esse contexto tem contribuído para a sua carreira e de outros autores da região?


Enoo - O "miolo de pote" em arte produzida no país hoje em dia é a distribuição. No caso da literatura, quem escreve não consegue, necessariamente, fazer circular tanto quanto gostaria. Já fui publicado em selos de tiragens pequenas e também em formato cartonero, mas, claro, sinto um retorno mais rápido pelo texto em si quando posto diretamente na internet. Talvez essa prática tenha se tornado, para além da vaidade, uma forma de "termômetro" que antecede o lançamento do produto em formato físico.

Wander - Quais os projetos para 2017?

Enoo - Tenho originais inscritos em concursos que publicam premiados, recentemente participei de uma antologia poética chamada "O Olhar da Língua Portuguesa no Mundo", inicialmente lançada em Portugal e que agora deve aparecer por estas terras através da parceria com a Casa do Poeta de São Paulo, tem também a ideia ainda em fase de desenvolvimento de um livro de poemas que lança olhar sobre a região metropolitana do Recife e que explora a relação intersemiótica entre poesia e fotografia, além de investidas na área de audiovisual através do edital público do fundo de cultura do estado.

Wander - Deixe uma mensagem aos leitores do blog.

Enoo - Não façam nada que eu não faria.

20/02/2017

Quem tem medo do black mirror?







Muitas pessoas em meu círculo de amigos rasgaram os mais pomposos elogios à série inglesa Black Mirror, uma das mais assistidas da atualidade. Como não sou lá tão aficionado por séries, ignorei os comentários por um bom tempo. Entretanto, a quantidade e o conteúdo de alguns deles começaram a me intrigar. Ouvi de colegas que eu sequer dormiria se assistisse.  Estaria eu ignorando um novo clássico do horror? Ora, mas a série não é uma ficção cientifica? Pois bem, o hype foi tão forte que acabou me obrigando a assistir.
De fato, Black Mirror é uma boa série, mas não me parecia genial-espetacular-lacradora-de-tirar-o-sono como pregavam.  Posso até comentar boas sacadas que vi em muitos de seus episódios ou também os vários problemas. Entretanto, o foco desse texto tem mais a ver com parte da recepção que a série teve a ponto ser de recomendada como assustadora. Afinal, que medo é esse que foi visto por tanta gente assim? Estaria eu sofrendo da síndrome do diferentão?
Para nos orientar na nossa reflexão, tomemos como base a ideia de que tememos aquilo que pode nos representar uma ameaça, especialmente à integridade física. Outra definição bastante famosa seria a lovcraftiana de que tememos aquilo que não conhecemos, aquilo a que não podemos atribuir uma explicação lógica. Com base nisso, o que a série nos apresenta que poderia ser visto como algo a temer? Tecnologia, diriam muitos dos amigos. Sim, óbvio, tecnologia. Está sugerido desde o título da série, que remete às telas de aparelhos eletrônicos que usamos e dos quais vamos nos tornando cada vez mais dependentes. Sim, seria possível explicar esse medo do espectador como o medo de se perceber cercado, talvez até dominado pela tecnologia. Todavia, o medo seria válido? Não estaríamos temendo a coisa errada?
Se partirmos do princípio do significado do termo, tecnologia (vem do grego) pode ter com ideia central a de criação. É possível então afirmar que parte do temor causado pela série se deve ao seu tratamento frente a tecnologias com as quais já estamos lidando (ranking de reputação nas redes sociais, por exemplo), ou que, num futuro próximo, poderiam se tornar viáveis, como as lentes que podem gravar o que você vê e reproduzir posteriormente em outros dispositivos. A dependência de aparatos tecnológicos é amedrontadora à maior parte da população por vários motivos. Poderíamos destacar aqui a cultura de que somos autônomos, independentes. Daí o medo seria plausível, já que costumamos ter sempre a impressão de que o mundo se move mais rapidamente do que nossa capacidade de interpretação dele. O medo então seria não da tecnologia, mas de ficar para trás, o que nos isolaria de nossos grupos sociais e acarretaria em danos para o nosso bem-estar. Mesmo assim, cultuamos a ideia de que a tecnologia é culpada por estes eventuais danos. Isso explicaria o medo que temos ao assistir ao episódio “Odiados pela nação” (foto 2), em que assassinatos estão ligados a hashtags de promoção do linchamento de figuras odiadas. Outra razão seriam nossos princípios religiosos, que muitas vezes envolvem uma cultura de que os males que assolam nossa sociedade são um forte indício de um fim para a humanidade. Exagero? Lembremos que, há poucos anos, especulávamos a utilização de chips que facilitassem a organização de dados pessoais e que, graças à difusão de informações falsas, resultaram na crença de que o governo pretendia “instalaro chip da besta nas pessoas”, o que causou a manifestação de parte da população que chegava a afirmar que a presidente seria o próprio demônio. 

Uma vez compreendido o porquê do temor, outra questão mais específica se faz presente: esse temor da tecnologia seria justo? Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o espelho é um símbolo que representa na maioria das culturas a revelação da verdade, a alma, a essência do ser. Tal como a bruxa malvada em Branca de Neve, a verdade parece não ser muito interessante quando vai contra a figura pública que criamos de nós mesmos. Some então à simbologia do espelho a semântica proporcionada pelo signo negro (ausência de luz, representação de um contexto maléfico, obscuro e que mal podemos compreender) e chegaremos a uma acepção pouco enfatizada do que significa black mirror: aquela verdade que gostaríamos de esconder por nos lembrar o que temos de pior, nossos medos, preconceitos, pulsões hedonistas que nem sempre coadunam com os princípios morais, éticos ou religiosos que pregamos frente a nossos círculos sociais. Com base nessa proposição, acredito que fica mais fácil entender por que o público em geral se assusta com a série. Além de desfazer a nossa ilusão de autonomia, mostra que nós, como Narciso, não somos tão perfeitos assim. O black mirror é tão poderoso que nos faz aceitar os mais esdrúxulos acontecimentos como verdade, tal como os milhares de mitos da deep web, desconsiderando todas as benesses e facilidades que ela eventualmente pode proporcionar (a possibilidade de comunicação sem nenhuma censura por exemplo).  Black Mirror, a série, apresenta esse lado negro humano (muitas vezes tendendo ao exagero, é verdade) e nós, como já de costume, precisamos de um bode expiatório que nos possibilite viver sem perceber que o mal (num sentido mais comum da palavra) não está necessariamente na tecnologia, mas em nós, no que fazemos com ela.
Mediante o exposto, como acabar com o medo do black mirror? Pergunta difícil, sem resposta. Mas estamos tentando respondê-la. Tentamos quando vemos as facilidades que a tecnologia nos tem proporcionado: carros elétricos, ferramentas de comunicação como as redes sociais, informação e conhecimento cada vez mais acessíveis, realidades virtual e aumentada, impressão 3D – a lista é infinita, pelo que vemos. Entretanto o black mirror está aí e, como todo espelho que se preze, nos sugere que olhemos nosso reflexo e reflitamos sobre como temos agido. As perguntas que posso estender ao leitor seriam: esse reflexo é tão assustador assim para você? Quando você se olha no espelho, o que você vê? A roupa de alferes, como Jacobina em O espelho? Alguém que bloqueia os perfis que te aparecem com visões de mundo diferentes da sua? De ser o linchado? De ser o linchador? A pergunta do título deste ensaio tem menos a ver com a série do que parece, não?

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