Ressucitando séries que estavam no limbo deste blog, voltamos a falar sobre o uso do sexo e da violência nas artes, saindo da literatura, dos animes e da píntura para comentar um pouco do cinema. Desde nosso primeiro post sobre o assunto trabalhamos com idéia da inevitabilidade de fuga destes dois temas, dada a força com que estão presentes em nossa vivência. A aproximação da arte com o sexo e a violência só tem a contribuir para a verossimilhança, nesse sentido, enriquecendo o filme e evitando que fiquemos com aquela sensação de pudicícia exacerbada que comumente criticamos nas novelas, por exemplo. Para tanto, pegarei três filmes para a nossa observação em que a violência está permanentemente presente, mas se articula de modos distintos.
O ano de 2002 viu nascer um filme que chocou platéias mundo afora pelo impacto de suas cenas de violência. Na verdade, os choques de Irreversível (Foto 1 - Direção: Gasparnoé) podem ser resumidas a duas: a cabeça de um dos personagens sendo esmagada por um extintor logo na primeira sequência do filme e o perturbador estupro de Alex, personagem da Monica Belucci, em que os mais sensíveis podem facilmente desistir de manter os olhos abertos. Pois bem, aqui podemos perceber que a pujança das cenas está a serviço do experimentalismo estético exposto pelo diretor, já que toda a montagem do filme por si só já amplia o desconforto do espectador propositalmente. A primeira sequência é nauseante, graças a imprevisibilidade de movimentação da câmera, movendo-se no ir e vir dos protagonistas dentro de um bar atrás do alvo. A própria montagem cria toda essa repulsa para ao decorrer do filme a desfazer, chegando a um final que beira a candura de tão suave que se apresenta. O filme, nesse sentido, pode ser visto como uma experiência na observação das diferentes impressões/ reações que pode causar ao espectador.
Já Baixio das bestas (2006 - Foto 2), de Cláudio Assis, tem crueza da cabeça aos pés, mas muito pouco estilizada, fato esse motivado por sua postura extremamente naturalista. A violência é exibida como forma de denúncia da violência que comumente ocorre nas nossas sociedades, aqui, em especial, à violência das cidades da zona da mata pernambucana. A montagem, portanto, é muito pouco ousada, mantendo-se o mais distante possível dos fatos, a maior parte do tempo, contribuindo para o tom quase jornalístico do filme. Destaque para a bela cena do estupro de Auxiliadora, personagem de Mariah Teixeira, no fim do filme. A moça, menor de idade que "era filha do avô", sofre abuso por parte do protagonista do filme, um típico agroboy (playboy do interior canavieiro). Pena que não se tenha escolhido a mesma crueza na cena da morte da personagem interpretada por Dira Paes, o que me parece uma suavização não condizendte com a ambientação proposta pelo filme. Mas isso deixamos para outra hora.
Destoando ainda mais, a violência em Kill Bill (2003 - Foto 3), de Tarantino, já aponta um caminho totalmente estilizado, usando e abusando dos exageros e recursos cinematográficos, o que cria um tom de paródia ou, pelo menos, de humor. A reverência ao estilo dos grandes filmes de luta orientais é flagrante; o grotesco é transformado em diversão, o que faz com que o espectador não tenha desconforto algum. A montagem apenas favorece essa perspectiva, como por exemplo na culminância das lutas A Noiva X O-ren Ishii e Noiva X Go Go Yubari (deixo essa última luta no vídeo abaixo, só como aperitivo).
Sendo assim, comentemos mais sobre o uso da violência nas artes. Tem exemplos? Contesta algo dito? A hora é agora! Até mais!
Foto1: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXfLqMJK6quMsGg6LPqdWphAhwwSGVbSaw3US18rfF-_9Ztakq1OTpf41Q51Kev4GYp3kC_KFYJpINuIFtci7eviIkM0o_lZWOfI_tI0-URPlpktZNAyUP3CHTXeeUMD1mWelcY2NJack/s640/irreversivel2.jpg
Foto 2: http://www2.uol.com.br/tropico/pscm/img/2007/5/i-2154.jpg
Foto 3: http://eakenwrites.files.wordpress.com/2009/12/kill-bill-crazy-88s.jpg
Foto 2: http://www2.uol.com.br/tropico/pscm/img/2007/5/i-2154.jpg
Foto 3: http://eakenwrites.files.wordpress.com/2009/12/kill-bill-crazy-88s.jpg
4 pitacos:
Adorei o texto. Principalmente porque não enumera apenas as cenas isoladas porque quando a violência é estética, não gratuita, ela é parte de um conjunto, está em toda parte dentro da construção do filme. Sou fã de "gore", "exploitation", gêneros que brincando com a gratuidade da violência no cinema, fazem até um exercício de estética, transformando a falta de necessidade de explicação em um estilo. Não sei se faz muito sentido mas é assim que eu penso.
Aproveitando para falar em gratuidade da violência, indico Violência Gratuita de Haneke. São duas versões, as duas dirigidas por ele próprio. Muito bom.
Vlw, Ana, veei assim q puder.
Esse filme é genial e a Monica Bellucci é uma grande atriz. Muito boa também a cena do esmagamento de crânio com estintor de incêndio.
Oops... Eu quis dizer "extintor".
poesiadapodridao.blogspot.com
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