07/11/2010

A paciente


Os outros tendem a achar que pessoas na minha condição não pensam. Talvez possamos considerar isto verdade se generalizarmos, apenas. Ainda consigo pensar, cogito se algum dia estive mais lúcida. Consigo perceber cada milímetro de silêncio que me circunda; deve ser noite. Minhas pernas formigam, o que deve ser também um bom presságio. Minha percepção das coisas está perfeita; noto a língua estática descansando no palato duro, quase nada de saliva, ouço com clareza as batidas do meu coração, compassadas, marcando um ritmo lerdo, porém preciso. Mesmo na situação que estou ainda sinto tudo, até prazer. É, prazer, apraz-me muito a vida baseada em suposições sensoriais. Tenho de admitir que sempre fui boa nisto. Mesmo com os olhos trancafiados, como agora, consigo ter noção dos arredores. As paredes me parecem limpas, claras. Deve haver uma mesinha a meu lado com alguns itens típicos do local, algum tipo de droga também (sim, pois não sinto dor). Com o que você nasceu para gostar tanto de hospitais, minha filha? Mamãe sempre exagerava nestas coisas, era apenas curiosidade, sempre me achei criativa. É uma pena que agora devam estar rindo da minha condição, especialmente ela. Mamãe? Não, esta já se foi faz tempo. Falo da Regina, minha irmã.

Dou graças a Deus todos os dias (quantos já se passaram aqui?) por me conceder o dom de lidar com a dura tarefa de ser caçula. Na infância já foi um pouco mais difícil, mas sei que ao longo dos anos isto fora superado. É pena que ela deva estar rindo de mim agora por eu estar aqui, creio que isto seja então o único fiozinho de ódio; também acho esse o fio que me faz não me perder neste labirinto do subconsciente, que me permite manter a lucidez. É difícil ter noção das horas. Não há nenhum tique-taque, por mais sutil, que se expresse dentro deste quarto. Sai pra lá, esquisita! Ouvi isso da minha irmã a vida inteira. Confesso que às vezes me acho excêntrica, mas isso é normal, sou jovem, acabo de ingressar na idade adulta (eu acho), já vi muita menina mais excêntrica que eu por aí. Você tá maluca? Você é a coisa mais bizarra que existe! Não é verdade, tenho cabeça corpo e membros como qualquer outra pessoa saudável. Consigo até, com um pouco de esforço, ser atraente, mas prefiro ficar no meu canto. As pessoas devem estar gargalhando lá fora, mas não tem problema, pois me sinto muito bem. Aqui parece um paraíso, a paz é plena... Tudo num silêncio sincrônico, a ordem perfeita das coisas. Não compreendo bem o que é este mundo obscuro de sensações, mas sei que gosto. Talvez seja Deus, talvez o plano ideal que se falava na Grécia, tudo parece nulo, mas sem desconforto, devo estar aqui há muito tempo. Sentia há horas (séculos, dias, anos, não tenho certeza) que uma agulha me atravessava o pulso, agora só o formigamento, o corpo dormente. É divertido ter tanta percepção assim das coisas, me sinto deusa, deusa no mar mais profundo. Há lugares inexplorados pelo homem, aonde ainda nem luz chega, aonde microorganismos aquáticos aguardam batismo; lá estou eu, feliz entre eles e corais que não vejo, só sinto, assim como sinto esta sala.

Admito que há de causar confusão a quem me ouve tais depoimentos. Entretanto, o que esperar de alguém em coma provavelmente numa cama de lençóis claros e com a cabeça enterrada num travesseiro? No mais, peço humildemente para ser ouvida (quem sabe um pouquinho compreendida). Sei também que peço demais, pois ouvir não é um dom de todo ser. Ninguém te suporta, sua idiota! Se enxerga! Regina sempre dizia que ninguém conseguia me ouvir. Mamãe morreu então por isto? Pelos cantos da casa a vi brigando com o papai. Ela não é retardada coisíssima nenhuma, ouviu? Você joga ela pelos cantos da casa e agora tira o corpo fora? Quer dizer que a culpa é minha, é? Culpa de que, mãe? Não sou doente, deveria ter invadido a cena e dito isso, mas tive medo. Agüentei calada. Bruxa! Hahaha... Mamãe, a Regina tá me chamando de bruxa de novo! Olha ela, mamãe! Chorei muito aquela noite; hoje não tenho do que reclamar, é tudo perfeito. É pena que aqui não dê para se vestir bem, devo estar com uma roupa de hospital, branca, porém quase bege de tão encardida. Cá entre nós, apesar de minha aguçada percepção da realidade, não me lembro de ter notado alguém por perto, uma enfermeira que fosse. Quem me dá banho? Preciso estar asseada, não sei se me depilam e nem se o fazem corretamente; sei apenas que uma mecha do meu cabelo sobe e desce sobre meu peito em ritmo quase nulo. Minha respiração é muito lerda, me sinto em slow motion o tempo todo. O cheiro forte de éter me cerca, tornando impossível saber se estou com mau cheiro. Como será o hospital? Será que há profissionais competentes, com boa vontade para limpar uma moça inválida num dos tantos leitos da repartição? Ou será que se sensibilizaram uma vez na vida e me pagaram um bom atendimento? Não acredito nisso. O meu pai sempre preferiu a mais velha, a rainha da casa. É sempre mais cômodo gostar daqueles que vivem num eterno torpor, diferente de gostar de alguém que se ganhou algum mimo foi de mãe em vida e desde então vive embebida num oceano de formol – formol de desprezo, melhor dizendo. Aonde você vai com estas roupas estranhas? Que tem demais, papai? A Regina logo se metia e me chamava de “coisa”. Até que meu pai acabava aceitando que eu me vestisse daquele jeito. Manias de jovem de querer aparecer, depois passa. Para o deleite da Regina, isto não passou, tampouco foi tolerado. Lembro de ter sido violentamente humilhada por causa da calça, tão bonita era aquela, um jeans, a perna direita longa, e esquerda curta, quase um shortinho... Eu chorei; juro que meu choro foi mais amplo que todo o silêncio que agora me conforta. Por outro lado, não cedi. Usei aquela calça até que as traças se deliciassem com sua deterioração. Penso, às vezes, que estou aqui, agora, apenas me deteriorando lentamente (deve ser por isso o formigamento). Não! Me desculpa. Sejamos lúcidos: estou apenas deitada numa cama de hospital e logo sairei do coma e me defrontarei novamente com o mundo lá fora, embora aqui não seja, a bem da verdade, um mau lugar.

***

Me dei conta agora de que algum tempo mais se passou. Não dá para ter idéia de quanto. Anos? Meses? Dias? É impossível saber, mas sinto que algum tempo se passou, devido à postura do meu corpo. Talvez tenha estado num estágio mais profundo e por isso não conseguia manter força alguma nem para exercitar o ato de pensar como faço agora. Se bem que reagi a algum estímulo, por isso me percebo pensante novamente; devo estar melhorando, dando um salto dentro da água do mar, criando a impressão de que a saída está próxima. Mas quem disse que quero sair? Bem, realmente eu não queria, mas esse estímulo que me acordara fez com que temesse esse fluxo de inconsciência onde estou submersa.

Sim, alguém chamou meu nome. Foi um chamado ríspido, seco, todavia definido o suficiente para me acordar (se bem que não sei se foi o primeiro chamado). O que me impressionou foi o fato de parecer ter vindo de muito perto. Alguém falou baixinho no meu ouvido? Tem alguém me chamando? Será? Estou com medo agora. É, tenho medo porque reconheço a voz que me chama, o tom sarcástico que deve transbordar em gargalhadas observando meu estado. Em que grau do coma me encontro? Não sei muito a esse respeito, sei que consegui captar um estímulo externo depois de muito tempo e que ele me fez tremer de medo. É ela, tenho certeza. A infeliz até aqui está me atormentando; por que ela não me deixa em paz? Está me observando, quase consigo vê-la rindo. A bruxa! Em seu novo número, a bruxa mostra como se disfarçar de pedra! Deus do céu, me afasta dela, fecha a boca dela para que não me chame mais. Os passos! Sim, conheço o jeito arrastado do calçado, um som sibilante cruzando os arredores. Que ela quer me cercando dessa maneira? Sai daqui! Sai daqui! Tenho certeza, ela quer rir da minha cara, quer ter certeza que vou ficar a eternidade definhando aqui nessa cama...

- Sai! Sai já daqui, sua infeliz! Sai!

Ergui-me com uma força impressionante, que nem eu pensava ter, o zunir do meu braço arrastou consigo todos os fios, senti dor (não só psicológica) ao sentir desprender-se uma agulha de meu braço rijo. Um ódio profundo me induzia aquilo, sentia-me viva por poder me erguer e agredir o rosto da pessoa que tanto mal me fez a vida inteira. Minha ira, minha catarse só se mostrou frustrante quando finalmente abri os olhos.

Foi com imensa angústia e incompreensão que naquela força, que mais parecia a de alguém querendo desesperadamente fugir de um afogamento, vi que não havia absolutamente ninguém no quarto. Uma lágrima escorreu de meus olhos, despencou junto com meu corpo. Minhas pernas não tinham a força que eu pensava, percebi pelo relevo do lençol que as cobriam que estavam muito finas. Deus do céu, há quanto tempo estou aqui! Os braços também um pouco atrofiados não me sustentaram, derrubando-me à cama novamente. Alguns vidros de uma mesinha ao lado caíram com meu alvoroço. Logo estes foram recolhidos por uma enfermeira que invadiu o quarto. Moça, você está bem? Calma, já vou cuidar desse sangramento. Tratando do meu braço, ela chamava com vontade o médico. Podia jurar que sentia carinho por parte dela, virou-me cautelosa, ergue-me o corpo, acariciou meus cabelos, como que os arrumando. Percebi então claramente que estavam curtos (não era uma longa mecha que eu sentia sobre o peito?), bem tratados, cheirosos. Todo o local compunha um ambiente confortável. Eu tinha as unhas cortadas, por um momento, ao molhar os lábios, pensei que estivesse de batom, mas deve ter sido impressão. De qualquer modo, isso me fazia criar, naqueles mínimos instantes em que a minha euforia se esvanecia, que eu precisava chorar. Ainda chamando o médico, a enfermeira puxou minha cabeça para seu ombro. As lágrimas... O que houve? A paciente despertou do coma, doutor. Ele abriu um sorriso, Pegou uma pequena lanterna para observar minhas pálpebras. Não deixa ela vir, não deixa, não... Ela quem? Doutor, a paciente não fala coisa com coisa. Tenha paciência, você mais do que ninguém sabe da condição dela. Cecília (ouvi novamente meu nome, mas agora sabendo ter sido a enfermeira que me acudia), olha pra mim! De quem você está falando? Não deixa ela vir, não deixa a infeliz vir aqui, repetia aquilo enquanto uns poucos curiosos do hospital esticaram suas cabeças para me ver. Ela acordou! Todos aplaudiram quando o médico anunciou. Não deixe ela entrar aqui. A enfermeira pareceu ter compreendido o que eu queria dizer. Cecília, se for pela sua irmã, acalme-se! Você sabe que ela não viria aqui. Pra falar a verdade, é impossível que ela venha, ela se foi! Calma, Cecília, você deu um grande passo hoje. Eu ainda chorava diante de meu final feliz. Eu juro! Era ela me chamando! Até aqui ela me perturba! Vocês estão escondendo isso de mim, não é, ou acham que estou vendo e ouvindo coisas? Minha cabeça estava doendo, a realidade me fazia doer a cabeça. Pedi por todos os santos que me sedassem. Por favor, quero dormir, quero dormir, quero dormir...

Depois de mais exames, me deitaram com esmero na cama, senti o sono se aproximar, fechei os olhos, aguardando pacientemente, finalmente esbocei um sorriso, preparei-me para um novo mergulho. Afinal, por que amar a superfície? Ouvi o mundo se dissipando, agradeci a todos, me senti confortável, respirava sem nenhuma sofreguidão.

[Wander Shirukaya]


Foto: Girl Sleeping, 1935, Tamara de Lempicka (1898-1980)

Fonte: http://2.bp.blogspot.com/_KXdqZPguyQo/SZLtsWRspVI/AAAAAAAACFY/n8dAgd4K_R4/s400/GirlSleeping.jpg

11 pitacos:

Desabafo de uma observadora? creio eu que sim, tocante tudo que esta escrito ai gostei muito. Me visita tbm http://dresputs.blogspot.com/
Abraço e sucesso.

Eu sou daquelas que acredita que há percepção, atividade cerebral e pensamentos, durante o coma! Sabemos tão pouco sobre o cérebro que é um ultraje, uma prepotência sem fim, afirmar com uma certeza irresponsavel, que a pessoa está completamente desligada da realidade no coma!

O texto é belissimo, dá para captar a angustia da personagem, o momento do despertar, e o anseio de voltar à calmaria do subconsciente! Espero que leiam por inteiro, mesmo sendo grande!

Obrigado, minha jovem. Pode deixar que oportunamente te visitarei.
Até mais!!! ^^

Pois é, Je´ssica o tamanho atrapalha um pocuo, eu mesmo sou contra posts muito grandes, mas não faz sentido dividir um conto, pois isso diminui seu impacto. Espero que os que passarem aqui possam perceber isso, como vc percebeu.
Vlw!!! ^^

Gostei dos textos, principalmente o da Clara Emilia.

Parabéns!

_________________ Guanabara FC

Wander, ha qnt tempo! EstavA ha um bom tempo sem perder a nocao da hora com uma leitura! Depois vou ler os outros contos. Lelia

Oh, Lélia!!! Q prazer te-la aqui em meu blog! Espero que volte sempre!!!
Obg! ^^

Textos legais... o que gostei mais foi o da Clara Emilia.
escreve muito bem.... virei mais por aqui.

Gostei dos textos, principalmente o da Clara Emilia.

adorei o texto, é muito dificil expressarmos o que alguem sente quando está em coma, o que se lembra. Voce conseguiu montar uma historia linda. parabens

É extenso e cansativo para alguns mas gostei do seu texto, cara. Nunca sei o que comentar sobre as coisas que não tem mais o que ser acrescentado :/ Parabéns!

[]'s
blog.avoado.com

Sempre me perguntei o que pensa uma pessoa que está em coma. Será melhor viver sofrendo, ou morrer e libertar-se?

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