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06/02/2017

Resenha: "Naufrágio entre amigos", de Eduardo Sabino



VISITA AOS COÁGULOS DA MEMÓRIA



A literatura é muito vasta e essa vastidão é fortemente alimentada pelo nosso comportamento frente à história. Isso faz com que algumas tendências nessa arte se sobressaiam. Uma delas é a de uma literatura interessada na preservação das memórias, tal como acontece em Naufrágio entre amigos, segundo livro de Eduardo Sabino. Aqui, veremos uma seleção de 12 contos que podem ser vistos como um tributo às memórias. Todavia, as memórias a que somos apresentados não são bem as do narrador (ele, em grande parte dos contos, parece ser o mesmo), e é aí que o livro cresce em riqueza para o leitor.

Como disse, a literatura é feita de tendências. No que diz respeito à forma com que o gênero conto tem sido abordado, uma é bastante famosa e parece ser a que Sabino prefere: a que popularmente conhecemos como “teoria do iceberg” de Hemingway. Essa tendência consiste em escrever de forma que algo mais importante esteja “submerso”, ou seja, o mais importante de um conto não se conta, fica cifrado nos interstícios da narrativa que está à mostra. Também por isso é possível compreender a prosa de Sabino a partir do pressuposto de que “um conto sempre conta duas histórias” (PIGLIA, 2004, p.89). Isso faz com o que vejamos os contos da compilação de forma mais ampla. Eis então a grande beleza dos contos de Sabino: não estamos lidando apenas com as memórias de um narrador, mas de um povo, de um coletivo, de uma comunidade. Percebendo isso, o leitor poderá prestar atenção ao que está fora da ponta do iceberg: as memórias que se diluem e se costuram entre a memória do narrador. Para ficar mais claro, peço permissão para comentar com mais detalhes (spoilers) o conto “Jogo de três”:


Nos sábados, Fabiano abria mão da vontade de pensar e jogávamos futebol e corrida. Mas só uma hora. Depois vinha um jogo de fases ao estilo adventure, dois jogadores. Power rangers era um game híbrido de luta e aventura, nosso estilo preferido quando estávamos os três. Havia um castigo a quem perdesse no futebol: jogar com o ranger rosa. Um dia Fabiano o escolheu e não havia perdido um jogo no futebol. “Eu acho que rosinha é a sua cara”, Lucas disse, rindo sozinho (SABINO, 2016, p.98).


O conto narra as memórias de adolescência de Eduardo com mais dois amigos, Fabiano e Lucas, que sempre se reuniam para jogar videogame, seja em casa ou nos fliperamas de Nova Lima - MG. A citação mostra a típica lembrança lúdica do período, mostrando-se até um tanto boba à primeira vista. Entretanto, quando ao decorrer da narrativa, ficamos cientes de que Fabiano, o colega que era vítima das piadas, revelara anos mais tarde sua homossexualidade, o trecho ganha outra leitura. Não mais as memórias saudosistas do narrador, mas a história de um rapaz muitas vezes incompreendido por causa de sua singularidade. A relação entre as duas histórias se torna ainda mais tensa quando vemos que Lucas, o outro amigo, ao crescer, apresentava um comportamento bastante preconceituoso, o que o impedia de perceber o afastamento de Fabiano da turma:


Então pergunto sobre Fabiano. “Tem visto? Vocês ainda conversam?” Lucas abaixa os olhos, semblante triste, e então vejo brotar uma raiva onde antes havia uma expressão de mansidão absoluta. “Aquele lá se perdeu. Só anda com as amiguinhas agora. Tá atolado no pecado”. Faz então um discurso atabalhoado, sem coesão, citando passagens do antigo testamento e dizendo que o mundo de hoje está pervertido e sem valores. Como Sodoma e Gomorra.

Faço um sinal para o garçom quando ouço o termo ditadura gay. (SABINO, 2016, p.107-108).


A situação culmina em um final forte e que fará o leitor pensar bastante sobre como lidamos com nossas memórias. Os outros contos seguem processo parecido. Recomendo atenção às pessoas com quem o narrador se depara. Elas são a grandeza das histórias de Sabino.

O leitor atento já deve ter percebido que falo aqui de um narrador, mas de vários contos, porque a voz que narra, salvo em “Assombros”, parece ser sempre a mesma. Isso confere a Naufrágio entre amigos uma característica especial: a composição dos contos segue tamanha confluência que é possível ignorar as fronteiras do gênero e ler a obra como um romance memorialista, em que cada a capítulo somos apresentados a diferentes eventos da vida de Eduardo, o narrador, e sua relação com as figuras com quem crescera na cidade de Nova Lima. Como costumo dizer, pessoas muito apegadas a gêneros podem ver essa característica como defeito, mas elas devem primeiro ver que não há motivo para alarde, já que os contos, apesar de um eixo temático em comum, possuem autonomia e independência entre si.

Para não ficarmos apenas nas flores, algo que me incomodou em alguns contos foi certa dispersão em assuntos pouco produtivos para o final, como acontece no conto-título. Isso não significa que o conto seja fraco, mas que seus eventos iniciais poderiam ser exibidos de maneira mais concisa, sem tantos detalhes, já que não contribuem diretamente para o desfecho. O mesmo pode ser visto em “Discografia do fim”, embora o conto deva agradar os mais saudosistas pela quantidade de referências à música – especialmente dos anos 90. Por esse ponto de vista da concisão, contos mais curtos como “Assombros” e “Estouros” demonstram apuro impecável, talvez este último o carro-chefe da coletânea – destaque ao desfecho arrebatador causado pelas duas histórias costuradas na narração.

Já o último conto do livro, “Buracos”, retrata bem outra característica de Sabino: o flerte com a literatura fantástica. O conto apresenta a cidade de Nova Lima vivendo uma “epidemia” de buracos. Buracos surgem no chão e as pessoas os procuram para se suicidarem. A estrutura da narração faz com que lembremos daquele fantástico popularizado na américa latina por Rulfo, Cortázar e cia., em que os acontecimentos que desafiam a realidade são regra, não exatamente exceção dentro da narrativa.

Por fim, podemos dizer que Naufrágio entre amigos é uma obra bastante forte e que revela um autor já com maturidade e rumos promissores. Recomendada a todos os que buscam entender como se dá a preservação de uma memória coletiva e afetiva de um lugar, dos pequenos espaços da vida cotidiana.


Referências

PIGLIA, Ricardo. Novas teses sobre o conto. Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 95 – 114.

SABINO, Eduardo. Naufrágio entre amigos. São Paulo: Patuá, 2016. 

30/01/2017

Resenha: "A obscena necessidade do verbo", de Letícia Palmeira




OBSCENIDADES ATRÁS DO PENSAMENTO



Sei o quanto soa pedante falar de si enquanto se tece uma crítica a outrem, mas entenda o leitor que estas primeiras linhas pretendem menos presunção e mais uma maneira de lhe deixar claro os critérios utilizados nas minhas observações sobre A obscena necessidade do verbo (Penalux, 2016), da paraibana Letícia Palmeira. Estruturalista que sou, deve prever o leitor a importância que dou a características formais e estruturais da obra de arte. Entretanto, como sabemos, muitos textos desafiam esses critérios, pois olhar apenas a obra é insuficiente para termos consciência do que ela mesma se apresenta. É preciso recorrer ao contexto, aos arredores, àquilo que Antonio Cândido diz ser o externo que se torna interno para enfim termos noção das qualidades da narrativa de Palmeira. Sendo assim, é importante frisar que estamos falando de um texto não apenas de uma autora, mas que representa figuras femininas.



A obscena necessidade do verbo nos apresenta uma narrativa autodiegética (Cf. GENETTE 1985), ou seja, aquela em que o narrador é também protagonista dos relatos apresentados. Trata-se de uma narradora que sente intensa necessidade de um desabafo para uma interlocutora, nomeada Lucélia. Ela ouvirá quase que passivamente todas as divagações da protagonista, funcionando assim como um ponto de referência para nós, leitores da obra. Talvez tenhamos então uma identificação maior com Lucélia, que ouve a tudo sem nada poder fazer, sequer agir como um sacerdote a recomendar o caminho para a expiação de eventuais pecados. Mas só talvez. É preciso lembrar do que afirmamos no começo: a estrutura está condicionada pelos arredores. E que arredores seriam esses?

Nos últimos tempos, temos visto a difusão mais expressiva do pensamento e de estudos feministas. O que faz com que, queria-se ou não, os temas discutidos nesses estudos se apresentem com mais frequência nas obras contemporâneas.  Talvez isso explique a forte influência de Clarice Lispector na obra de Palmeira, sendo possível (e até recomendável) que o leitor trace uma comparação com Água viva, que também nos apresenta uma narradora excessivamente digressiva, desabafando a uma interlocutora:


Este texto que te dou não é para ser visto de perto: ganha sua secreta redondez antes invisível quando é visto de um avião em alto voo. Então adivinha-se o jogo das ilhas e veem-se canais e mares. Entende-me: escrevo-te uma onomatopeia, convulsão da linguagem. Transmito-te não uma história, mas apenas palavras que vivem do som. (LISPECTOR, 1998, p. 13)



Percebamos que o jogo que a narradora de Palmeira faz com a ouvinte é similar:


Por exemplo, este momento de agora, somente será vida, quando passar de nós e se tornar uma lembrança, mesmo que remota, da nossa troca de palavras. E muito embora eu não a deixe falar tanto, nosso diálogo é verdadeiro, Lucélia. Nosso diálogo será memória. (PALMEIRA, 2016, p. 25).



As convergências entre ambas as autoras podem ser vistas como faca de dois gumes: se por um lado, atesta a qualidade de Palmeira e lhe desnuda o apuro e precisão na linguagem, especialmente no uso de monólogo interior e fluxo de consciência, por outro, revela uma autora que, apesar de já ter uma boa estrada percorrida (A obscena é sua quinta obra publicada), ainda parece pouco tímida em alçar voos que lhe deem mais singularidade.

Mas, como dissemos, aqui é impossível olhar apenas a estrutura. Palmeira é precisa na construção de uma narradora que representa o cotidiano imposto a grande parte da população feminina. As mulheres têm sido forçadas a viver o pequeno universo de suas casas, impedidas do que podemos chamar de vida lá fora. Isso faz com que os espaços descritos ganhem força extraordinária para entendermos o conflito exposto. Impossível, então, não concordar com o que diz o prefácio de Márcia Barbieri:


A narradora tem grandes insights a partir de fatos cotidianos e aparentemente banais como a limpeza de cristais, a fórmica da mesa ou um gole de café com adoçante. Temos a impressão que os objetos ao seu redor estão impregnados de vapor vital e a qualquer momento deixarão de ser inanimados e serão contemplados com o sopro da vida. A epifania pode estar guardada em uma gaveta do armário ou num canto escuro da sala (BARBIERI, 2016, p. 14. Grifo meu).




Conto, poema, romance, novela

Também vale a pena chamar a atenção para o desafio que nos parece ser classificar A obscena necessidade do verbo. Isso parecerá, ao leitor mais conservador, mais apegado a gêneros, uma afronta e mesmo um atestado de má qualidade da autora. Por outro lado, leitores mais ávidos a compreender como funcionam os entremeios dos gêneros literários e que gostam de leitores que exploram as linhas tênues entre eles terão material bastante prolífico aqui. Uma das características da obra de Palmeira é o lirismo, a narração em primeira pessoa, a indefinição de tempo. Tudo isso faz com que a autora se aproxime do que chamamos prosa poética. Por outro lado, estamos lidando com uma digressão que gira em torno de uma única figura, a da narradora, o que talvez possa ser interpretado como a tal unidade de que fala Edgar Allan Poe ou da esfericidade de Cortázar o que aproximaria A obscena do conto. Por fim, a sucessão de eventos enunciados pela narradora, aos quais ela vai tomando como ponto de partida para as divagações, podem aproximar a obra de gêneros mais extensos e heterogêneos, como a novela e o romance.  Certamente, aqueles que se divertem com o cruzamento dessas características verão na obra um enriquecimento muito grande a partir do que Palmeira nos oferece.



Concluindo

A obscena necessidade do verbo é uma narrativa fluida, curta, que representa efetivamente a figura da mulher e de sua intensa busca por voz ativa; também é uma obra que serve de tributo a grandes escritoras como Clarice Lispector e Hilda Hilst. Serve ao leitor mais introspectivo, que goste de uma prosa intimista que reflete sobre questões existenciais e que consegue, concomitantemente, expor limites de gêneros literários já consagrados pela crítica. 


Referências

BARBIERI, Márcia. “Um jorro de vida”. In: PALMEIRA, Letícia. A obscena necessidade do verbo. São Paulo: Penalux, 2016.

CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. Disponível em: < http://www.fecra.edu.br/admin/arquivos/Antonio_Candido_-_Literatura_e_Sociedade.pdf > Acesso em: 30/01/17.

CORTÁZAR, Julio.Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974.

GENETTE, Gérard. Discurso da Narrativa. 3ª ed. Lisboa: Veja, 1995 (coleção Veja Universidade).

LISPECTOR, Clarice. Água viva. São Paulo: Rocco, 1998.

PALMEIRA, Letícia. A obscena necessidade do verbo. São Paulo: Penalux, 2016.



POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. POE, Edgar Allan:poemas e ensaios. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Globo, 1987 (p.77-88).

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