"Ascensão e queda": romance de estreia!

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Contos de Wander Shirukaya

Para aqueles que querem conferir o que tenho escrito, dêem uma olhada aqui!

Tergiverso

Sensualidade em forma e conteúdo aguardando sua visita.

O híbrido e a arte

Animes, cinema e literatura

Procurando entrevistas?

Amanda Reznor, André Ricardo aguiar, Betomenezes... Confira estes e tantos mais entrevistados por Wander.

01/05/2015

Redução da maioridade civil: seria possível?


Nos últimos dias, consultei alguns amigos sobre a possibilidade de ampliar o leque de assuntos a discutir aqui no blog. Muitos temas foram sugeridos e resolvi comentar um  pouco sobre eles. Para iniciar essa nova fase, resolvi comentar algo que tem levantado polêmica em nosso país: a redução da maioridade penal. 

Sempre que alguém inicia essa discussão logo se posiciona. Para não fugir ao costume, farei o mesmo: sou contra a redução. Entretanto, pretendo analisar uma das justificativas mais repetidas pelos defensores da redução, conforme exemplifico em um tweet que podia ser o seu ou de qualquer outro colega:



Façamos uma reflexão mais voltada a esse discurso em especial. O sujeito afirma que um menor de 16 anos deveria poder ser preso, já que também pode votar. Qual o problema de tal afirmação? O mais comum de muitas opiniões emitidas pela internet: não paralelismo, ou seja, não é coerente. Eis a seguir o porquê.
Dentro da afirmação temos duas ideias principais que estão sendo comparadas e postas erroneamente em pé de igualdade. A primeira diz respeito ao fato de um menor poder votar e a segunda de poder ser preso e julgado como adulto. Na primeira nós temos um direito civil, o de poder votar e eleger seus governantes; na segunda, uma obrigação, uma punição. Diante disso fica impossível que a comparação tenha lógica já que são distintas. Se quiséssemos uma comparação mais coerente, deveríamos comparar o ato de poder ser preso com outro que pudesse levar o menor a prisão, ou seja, deveríamos relacionar um castigo com um crime, não com um direito. 
Provada a incoerência discursiva, peguei-me pensando se, ao invés de partirmos de uma comparação acerca do crime, partíssemos dos direitos. Ora, já que a maior parte da população se declara a favor da redução da maioridade penal (tanto que essa lei deve sim ser aprovada), por que não lutamos pela "redução da maioridade civil", ou algo assim? Posto que, segundo essa parte da população, ele pode ser penalizado por um crime, já que pode votar (como se votar fosse também um crime), por que não pedir que todas as "vantagens" de um maior de idade lhe sejam concedidas? Ora, se um menor de 16 anos pode votar, também poderia casar, comprar, comercializar e consumir álcool; dirigir; prestar concurso público; casar sem autorização dos país; consumir e comercializar pornografia; portar (desde que preencha os demais pré-requisitos) armas de fogo; viajar de avião sozinho, entre tantas outras coisas que os "adultos" podem fazer. Já que a redução da maioridade penal lhe traria uma cerca de novas situações em que pudesse ser visto como criminoso (um jovem de 16 namorando uma garota de 14, por exemplo), por que não lhe permitir que, por outro lado, desfrute de uma condição de civil maior de idade aos 16 anos? Você seria contra isso?
Independente de sua resposta, perceba que as ideias expostas aqui estão mantendo certo paralelismo, ou seja, tentando ser mais lógicas. O que se mostra aqui não é exatamente uma campanha pró-redução da "maioridade civil", mas mostrar que a redução da maioridade penal acarreta uma reflexão bem mais complexa do que parece e, exatamente por isso, não deva corresponder às expectativas daqueles que a defendem.  Outras soluções deveriam ser sugeridas para maior eficácia no combate ao crime e na recuperação de menores infratores. 

20/04/2015

Deus é um standard de Jazz?

Lerdo como uma tartaruga, cá estou comentando os assuntos que você já deve ter cansado de ouvir falar. Eis que nos últimos dias, Ed Motta deu um piti em seu facebook reclamando da presença de brasileiros em seus shows no exterior. Como sempre, aqueles que adoram atirar a primeira pedra (e as seguintes) malharam o pau e o execraram, mesmo quando, tendo visto o imbróglio causado, o artista resolveu pedir desculpas. Não adiantou muita coisa, já que as Sheherazades da vida sempre pregaram que, já que falhou, que arque com as consequências. Não me admiraria se hackeassem Ed e jogassem na rede possíveis nudes seus. 
O quê? Defendendo um cara que não valoriza o Brasil? Não, não é bem assim. Há muita coisa que pode ser debatida a partir do fato ocorrido. 

Sim, Ed Motta errou feio, errou rude, mas não exatamente em tudo. Sua conclusão é errônea, assim como o modo com que se expressara. Entretanto, é fato que muitas vezes o público, digamos assim, extrapola. Algumas pessoas passam da conta na bebida, outros, por sua vez, não são profundos conhecedores da obra do artista que vêem; tal como chamamos hoje em dia, esses são os posers. Alguns espectadores são comumente invasivos, invadem palcos, camarotes, mesmo quando o artista, depois de uma apresentação exaustiva, só precise de uns cinco minutos de descanso. Não raro, aparecem na mídias matérias sobre complicações entre artistas e seus fãs, ou mesmo questionamento de quão fãs estes fãs são.
O problema, como disse, é a conclusão feita pelo cantor. Ao pedir que brasileiros não mais o acompanhem, digamos assim, ele cria uma espécie de redoma, uma sacralização de sua música - algo que, ao meu ver, é bastante nocivo. Tal comportamento é bastante comum na literatura; muitos artistas partilham da opinião de que a literatura e arte são sagrados, afastando os "pobres mortais". O mais engraçado é que, vez ou outra, os mesmos artistas reclamam de não serem compreendidos pelo público em geral. O importante a perceber aqui é isto: os artistas que acreditam na sacralização da arte tendem a impedir a aproximação do público. Por outro lado, percebendo a falta de boa vontade do artista, o público se afasta e, oportunamente, produz sua própria expressão artística no intento de se satisfazer. Ou seja, Ed Motta, embora certo em se chatear com a conduta de alguns espectadores, erra feio em se sacralizar. Ora, não dizem que Deus é brasileiro? Então por que Deus só ouve standards de jazz? Por que não um pancadão do MC Pikachu? Ou será que, de fato, Deus não está nem aí para o Brasil?
Continuando com a hipótese de um Deus brasileiro, acredito que, em toda sua sapiência, Deus deva tratar a "brasilidade" com a complexidade que lhe é merecida, ou seja, sabendo da pluralidade de um povo que vive em um país tão extenso e singular. O brasileiro do José de Alencar não exclui o de Cláudio Assis, que não exclui o de Villa Lobos, nem o de Mano Brown, Vanessa da Mata, Ana Paula Valadão e, claro, também não exclui o de Ed Motta. Ao ter um comportamento excludente com relação aos diversos tipos de público, acabamos por tirar dele a oportunidade de se abrir a novas experiências artísticas e intelectuais, o que é de fato muito salutar tanto para a arte quanto para o público. A troca de experiências acontece o tempo todo, basta observarmos o quanto mais artistas tendem a se "misturar" uns com os outros. Tom Zé, só para ficar em um exemplo, já colaborou com Mallu Magalhães, Emicida e tantos outros, sem uma necessidade de manter uma hierarquia e sacralização do que faz. Talvez Ed Motta teria sido mais feliz em sua conclusão se tivesse agido com o bom humor visto em seu show recente, tirando-lhe as neuras da cabeça e tornando sua apresentação mais aprazível a gregos e troianos.

Por outro lado, nós deveríamos prestar atenção a uma coisa em especial: o fato de um artista ter posições contrárias as nossas não deveria ser motivo para falar mal de sua obra. Ed Motta é um cantor muito bom, um compositor de extrema qualidade. Dizer que, por causa de suas afirmações, ele é apenas um gordinho chato que tem inveja do tio ou coisa assim me faz lembrar daquele boy que foi xingar muito no twitter porque o Restart, segundo ele, não prestava mais por causa de um problema na entrada do show da banda. Ou seja, é necessário saber dissociar o artista de sua obra. O artista é humano, falho, faz merda como qualquer um de nós. Sua obra, por outro lado, possui características distintas, que representam um recorte da realidade. Ao rechaçar a obra de um artista por causa de coisas que tal artista disse ou fez, lembre-se de que Lewis Carrol tem sua obra (Alice no País das Maravilhas) adorada até nossos dias, mesmo tendo sido pedófilo.  

Sendo assim, vejamos que a arte não é algo sagrado. O artista, muito menos. É importante deixar de ser passional às vezes e manter um pouco de paralelismo e coerência na hora de fazermos nossas avaliações, ainda mais em tempos de ânimos exaltados que temos vivido. Deus está para todos (considerando que exista) e, definitivamente, está mais para samba do crioulo doido do que para standard de jazz. 

Amém. ☺

Deixo vocês com um pouco da obra do grande Ed Motta, sensível e intimista, em seu Chapter 9. 


03/03/2015

Lançamento de Ascensão e queda em Itambé - PE: 13/03/15!

Olá, pessoal!
 
Cá estou para informar que o romance Ascensão e queda, de autoria deste que vos fala, será lançado no próximo fim de semana em Itambé - PE. O evento acontecerá no Divisa Restaurante Bistrô, próximo a Policlínica Local, e acontecerá às 08h da noite. A apresentação será feita pelo poeta Philippe Wollney. A quem estiver por perto, apareça!
 
 
Serviço:
Livro: Ascensão e queda
Autor: Wander Shirukaya
ISBN: 978-85-7858-252-4
1ª Edição - Cepe Companhia Editorial
 
Local: Divisa Restaurante Bistrô
Rua Juiz Roberto Guimarães, 62.
Centro, Itambé - PE
Data: sexta, 13/03/2015, às 20:00h.
Apresentação Philippe Wollney
 
Ascensão e queda
O grande vencedor de 2014 é um romance que apresenta estrutura narrativa polifônica, com diversos narradores/personagens e uma temática não muito comum na ficção pernambucana, ao explorar um enredo memorialístico em torno das agruras e angústias existenciais de uma banda de rock diante do suicídio de seu líder e vocalista. Shirukaya demonstra grande domínio do universo da música e explora a linguagem própria desse grupo em uma narrativa ágil e permeada de referências à cultura pop.
 
Página do livro no facebook: aqui.

10/02/2015

Glorificando o híbrido - Parte IV (final)

Atenção! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Chegando ao fim de nossa série, depois passarmos pelo cinema (Matrix) e anime (Kill la kill), é chegada a hora de ver um bom exemplo do híbrido na literatura. Para tanto, vamos ver o que acontece em Rei Rato, do mestre da weird fiction China Miéville (foto da direita). 
Numa Londres cerda de criaturas abomináveis que se esgueiram quase invisíveis pelos becos e esgotos, uma dessas criaturas governas todos os imundos ratos da cidade. O conflito começa quando um ser misterioso resolve destruir o Rei Rato: o flautista de Hamelin. Ele tem o poder de, através de sua música, controlar toda a população e fazê-la atender suas ordens. Para cada tipo de criatura, o flautista deveria tocar uma música diferente.
Vendo que não seria páreo para o flautista, Rei Rato decide ir atrás de seu "herdeiro", Saul Gramond. Saul é o híbrido, filho de uma aventura de seu pai com uma humana, que agora terá de despertar seu lado sombrio. Assim, vamos acompanhando toda a adaptação de Saul ao mundo sombrio dos esgotos, tudo acompanhado da batida veloz do jungle e do drum'n'bass. Durante esse aprendizado, o flautista também começa a caçá-lo para que toda a raça dos ratos seja destruída. 

Confronto final

No duelo final entre o flautista e Saul, vemos o quão poderoso é o antagonista, quando, com a música de seu instrumento, faz com que todos os humanos e ratos estejam sob seu domínio, entretanto, Saul consegue escapar do então iminente massacre dentro de uma casa de show, pois ele não é rato, nem humano. Sua hibridez faz com que o flautista não consiga dominá-lo e, assim, saia derrotado. Complementando o encerramento, vemos a clara mensagem política de celebração da miscigenação e da organização de uma sociedade que não se submeta aos caprichos de seus líderes. É possível ver o futuro como um ambiente de preservação da identidade e, concomitantemente, da promoção da diversidade. 

Concluindo

O que podemos ver a partir das três obras aqui apresentadas é que nas últimas décadas, a produção artística a nosso redor parece também ter se preocupado em promover a diversidade étnica e cultural. Escrever é sempre um ato também político e, como tal, serve de material para reflexão sobre nossos rumos em tempos de crises econômicas e políticas separatistas e/ ou persecutórias. Vale a pena ver o que cada um dos híbridos tem a dizer, perceber até onde somos como eles e ver o que podemos aprender com eles. Fica o convite. 

Perdeu as outras partes? Veja aqui as partes I , parte II e parte III da discussão!
 

26/01/2015

Lançamento de "Ascensão e queda" dia 27/01/15 em Recife!

Alô, alô, amigos de Recife e região! Nesta terça-feira, 27/01/15, estarei em Recife, no Museu do estado de Pernambuco, às 19h, para o o lançamento do meu primeiro romance, Ascensão e queda, vencedor do II Prêmio PE de Literatura, em 2014. Na ocasião também serão lançadas as obras dos demais vencedores, Rômulo César Melo, Tadeu Sarmento e Hélder Herik. 

A quem puder: apareça. será uma boa oportunidade de conhecer o que andam produzindo essas novas caras de nossa literatura. 
Desde já agradeço.





Ascensão e queda (romance), Wander Shirukaya


O grande vencedor de 2014 é um romance que apresenta estrutura narrativa polifônica, com diversos narradores/personagens e uma temática não muito comum na ficção pernambucana, ao explorar um enredo memorialístico em torno das agruras e angústias existenciais de uma banda de rock diante do suicídio de seu líder e vocalista. Shirukaya demonstra grande domínio do universo da música e explora a linguagem própria desse grupo em uma narrativa ágil e permeada de referências à cultura pop.



Serviço:

Lançamento dos livros vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura
Dia: 27 de janeiro
Horário: A partir das 19h
Local: Museu do Estado de Pernambuco
Aberto ao Público

Para mais info, clique aqui.


Ascensão e queda (romance), Wander Shirukaya
O grande vencedor de 2014 é um romance que apresenta estrutura narrativa polifônica, com diversos narradores/personagens e uma temática não muito comum na ficção pernambucana, ao explorar um enredo memorialístico em torno das agruras e angústias existenciais de uma banda de rock diante do suicídio de seu líder e vocalista. Shirukaya demonstra grande domínio do universo da música e explora a linguagem própria desse grupo em uma narrativa ágil e permeada de referências à cultura pop.
- See more at: http://www.cultura.pe.gov.br/canal/literatura/livros-vencedores-do-ii-premio-pernambuco-de-literatura-serao-lancados-na-terca-feira-27/#sthash.S28WmgDM.dpuf
Ascensão e queda (romance), Wander Shirukaya
O grande vencedor de 2014 é um romance que apresenta estrutura narrativa polifônica, com diversos narradores/personagens e uma temática não muito comum na ficção pernambucana, ao explorar um enredo memorialístico em torno das agruras e angústias existenciais de uma banda de rock diante do suicídio de seu líder e vocalista. Shirukaya demonstra grande domínio do universo da música e explora a linguagem própria desse grupo em uma narrativa ágil e permeada de referências à cultura pop.
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Ascensão e queda (romance), Wander Shirukaya
O grande vencedor de 2014 é um romance que apresenta estrutura narrativa polifônica, com diversos narradores/personagens e uma temática não muito comum na ficção pernambucana, ao explorar um enredo memorialístico em torno das agruras e angústias existenciais de uma banda de rock diante do suicídio de seu líder e vocalista. Shirukaya demonstra grande domínio do universo da música e explora a linguagem própria desse grupo em uma narrativa ágil e permeada de referências à cultura pop.
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13/01/2015

Por que sou Charlie?



Saudações, amigos de blog. Queria voltar à ativa um pouco mais tarde, mas a necessidade de falar está mais forte do que nunca. Sendo assim, vamos à ela.
Em tempo de catástrofes pipocando mais que bala em festa de Cosme e Damião, uma coisa tem chamado a atenção: não dá para ficar alheio ao que acontece por aí. Não importa quem você seja, as pessoas querem a todo custo te forçar a ter um posicionamento sobre algo e, muitas vezes, para ter o gosto de criticá-lo. Com os últimos acontecimentos envolvendo grupos terroristas não é muito diferente. E eu, para infelicidade de alguns, sou Charlie. Desculpa.
Mas por que diabos se posicionar a favor de uma revista francesa enquanto na Nigéria o Boko Haram faz pilhas de vítimas? Por que se sensibilizar com uma revista francesa enquanto as duas Coreias seguem se estranhando, enquanto a Grécia segue com sua crise econômica, enquanto os interiores do Brasil seguem dominados por coronéis, agiotas, ou simplesmente por qualquer um com um ou dois pontos na perícia peixeira
A resposta é simples e frustrante para muitos dos críticos da sensibilidade alheia que pululam nos twitters da vida: uma coisa não anula a outra. Também me sensibilizo pelas ocorrências na Nigéria (embora os mesmos que me lembrem dela já tenham esquecido do ebola pintando o sete na Libéria), assim como me sensibilizo por pessoas perseguidas por denunciar ações de milícias Brasil afora. É muito importante que esses eventos sejam lembrados e que tenhamos no mínimo consciência do que eles representam para pensar no que podemos ajudar para evitar que tais tragédias se repitam. Como dá para notar, nem tudo chega a nossos ouvidos, o que engrandece ainda mais o papel das opiniões contrárias de nos alertar para tudo o que mais aconteça que mereça nossa sensibilidade ou indignação. 
Je suis Charlie, e também sou as vítimas africanas, asiáticas, bolivianas. Aqui é como coração de mãe. Entretanto, como disse, uma coisa não anula a outra. Saio em defesa especial dos cartunistas franceses não por serem franceses, tampouco por serem cartunistas, mas por que a tragédia que os envolve é diretamente tangente ao que já discutimos tantas vezes por aqui em defesa do humor. Ou seja, ao menos para mim, faz imenso sentido alguém que escreve sobre o direito a fazer humor se posicione a favor de alguém que também o fazia. Simples assim.
A crítica dessa postagem não é exatamente a quem insiste em alertar sobre as demais tragédias deste início de ano, mas aquelas que acham ridículo você se sensibilizar por algo que ela julga pífio, sempre começando seu discurso com "nada justifica, claro, mas...". Me parece bobagem esse tipo de comportamento uma vez que ninguém é mais hipster que ninguém só por chorar a morte de alguém lá no Sri Lanka enquanto olhamos a França ou a Nigéria. 
Concordo que muitas pessoas podem abraçar a causa francesa sem saber direito o que lá acontece (talvez nem eu mesmo saiba, quem garante?), mas não podia deixar de manifestar apoio, já que sempre prezamos pelo bom humor e pela liberdade dele. Há quem julgue o comportamento dos cartunistas, talvez para no fundo concluir que eles "fizeram por merecer", mas não vou entrar nessa parte. Quem sabe outro dia. A única reivindicação é para que deixemos de lado uma visão binária das coisas. Je suis Charlie et vous aussi. Abraços.

Para quem nunca viu a série sobre humor (que talvez ganhe mais capítulos mais adiante), confira:


09/12/2014

Glorificando o híbrido (parte III)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 




Moda, fascismo e muito nonsense em Kill la Kill!

Continuando nosso papo sobre o híbrido nas artes, apresento aos que não são muito fãs de cultura japonesa um dos animes mais badalados dos últimos tempos e importante exemplo para nossa discussão.
Kill la Kill nos apresenta um cenário distópico em que a militarização das escolas é levada a níveis hiperbólicos. Por sinal, hiperbólico porderia ser a melhor palavra para definir o anime, já que tudo é extremamente exagerado: fan service, derramamento de sangue, humor e nonsense. A história ressignifca um monte de clichês, partindo do clássico jovem-que-quer-vingar-a-morte-do-pai. Essa jovem é Matoi Ryuko, que, fazendo uso de uma tesoura-espada, se rebela contra a chefa de sua escola, Kiryuin Satsuki. O negócio vai ficando cada vez mais louco quando descobrimos nossa protagonista favelada na verdade não é humana: é uma criatura híbrida. 
Ryuko usa um uniforme com vida própria, Senketsu, com quem conversa e tem uma relação de profunda amizade. O uniforme sobrevive se nutrindo de seu sangue e, em troca, Ryuko usa seus poderes, que se ampliam ao longo da série. O que não se contava é com a reviravolta digna de novela mexicana: Satsuki também tem interesse em Ryuko para que juntas, possam derrotar Kiryuin Ragyo, verdadeira mãe de Ryuko que está promovendo a destruição do mundo por... roupas!
Segundo ficamos sabendo, criaturas alienígenas minúsculas, chamadas de Fibras da Vida, viajam pelo espaço e se instalam nos planetas para de forma parasitária, vão fortalecendo seus hospedeiros até que estes estejam prontos para ter suas energias levadas, dando origem a novas Fibras da Vida. Isso mesmo, roupas alienígenas que invadem a terra para transformar a Terra numa imensa bola de lã. Como dito, tudo se torna ainda mais absurdo ao Ryuko saber que não é filha de seu pai, mais é uma criatura híbrida, filha de Ragyo com as Fibras parasitas, ou seja, meio humana, meio roupa. 
Por fim, a humanidade vence, mas com a ajuda de Ryuko, que resolve lutar para não ser dominada pelas roupas, algo impossível para qualquer raça inferior como a humana. O resultado é que a união perfeita de Ryuko com seu uniforme que, por estar ligado ao sangue da protagonista, é também híbrido, faz com que os arifícios que as Fibras da vida usam para dominar os demais sejam ineficazes, causando o completo banimento dos aliens da face da Terra, enfim todos podem descansar em paz, sem se preocupar em ser dominados pelo que vestem, bem como vestir o que bem entenderem. 
Diante de uma história tão maluca, à primeria vista, não se percebe muita coisa, pois os exageros propositais da obra fazem com que muita coisa possa passar despercebida. Ou seja, Kill la kill pode paraecer um anime de humor com aliens invadindo a terra, mulheres seminuas em uniformes especiais (espécie de tributo à Sailor Moon, diga-se de passagem) e muito, mas muito sangue. Porém, como se espera de toda boa obra, muitas leituras se abrem sutilmente, como por exemplo o poder feminista da obra, mesmo fazendo uso de artifícios comumente machistas, discussão sobre a  exploração da sexualidade feminina, sobre a militarização das escolas conservadoras e, especialmente para o nosso caso, a representação de um ser único, que se difere dos demais por ter características de dois grupos até então distintos: o híbrido. Sem esse hibridismo, como vimos, Ryuko não conseguiria destruir as roupas alieníginas. Temos então outro grande exemplo de representação de "miscigenação" libertadora. 



No próximo episódio: depois de homem-software e mulher-roupa, que tal vermos um homem-rato? Aguardem!

 Continua...

08/11/2014

Glorificando o híbrido (Parte II)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Tudo bem que nessa parte da nossa dicussão nem seria tão necessário avisar sobre spoiler, já que pode se dizer que todo mundo viu a trilogia Matrix. Sendo assim, pulamos uma introdução mais detalhada e vamos olhar mais de perto os eventos finais de Matrix Revolutions, último filme da série. 
Matrix deixou uma legião de fãs, mas também deixou dúvidas e lacunas com sua estética mais preocupada em sugerir do que em afirmar algo. O resultado é que até hoje temos muitas interpretações sobre o desfecho. É quase unânime a opinião de que os acontecimentos do final são bastante confusos, o que me fez lembrar também do desfecho de Evangelion e sua viagem cheia de parabéns. Proposital ou não, a confusão existe e acabou por enriquecer a obra. 
Destre os principais pontos de confusão, podemos citar o fato de a existência de Neo não ser questionada. Na verdade, o tempo todo os personagens nos sugerem que sabem bem quem ou o que Neo é, mas nós temos essa resposta com convicção, ainda mais quando lembramos de que Neo conseguira usar seus poderes fora da Matrix. Caso semelhante acontece com o Agente Smith. A pergunta que fica é: Neo é um programa? Um humano? Tais questionamentos acabaram por fazer com que alguns espectadores acreditassem que a realidade onde Neo vive também estivesse sendo uma simulação, ou seja, a chamada teoria da Matrix dentro da Matrix

O que propomos aqui é que algumas respostas a estes questionamentos podem ser encontradas ao observar os procedimentos narrativos do filme. É possível que em algumas obras fantásticas ou com elementos próximos dele, possuam algo que destoa da linearidade esperada, algo que "não bate" com o que se apresenta, algo que fere e transgride as leis do que o leitor/ espectador define como real. Ele não obedece à realidade, mas no entanto continua lá e, até certo ponto, permanece imcompreensível. Se tomarmos como base essa transgressão da realidade aqui comentada e relacionando-a aos eventos de Matrix Revolutions, é possível ter uma nova interpretação do que é Neo. Ele é o elemento fantástico, ele não é um programa, mas também não é um humano; é, na verdade, uma fusão, um ponto de convergência ou transição entre eles: é o híbrido. De acorodo com o que vemos na série, o híbrido vence, ele é o escolhido, está acima dos demais e, sendo assim, o único a romper com o sistema social que vemos. A revolução vem da união. 
Curioso é que Smith também levanta as mesmas questões, mas ele não quer salvar ninguém: quer corromper, destruir. À primeira vista isso derrubaria a nossa tese, mas por outro lado a enfatiza,  já que ressalta que o purismo de um humano ou programa se mostra insuficiente perto de alguém com as caracteríscas dos dois. Percebamos o quanto de novos caminhos abrimos olhando sobre esse ponto de vista. 
No próximo capítulo, veremos que Matrix não está tão distante assim de Kill la Kill. Até breve!
Segue uma musiquinha aí pra animar.


Continua...

15/10/2014

Glorificando o híbrido (parte I)


Saudações, meus amigos! Aqui vou eu aproveitar que estou com menos preguiça de pensar e trazer novos debates. Sem mais delongas, vamos nessa!
Em toda a história da humanidade temos muitos embates ideológicos e, em sua maior parte, todos apresentados de forma binária, maniqueísta: bem contra mal, Platão contra Aristóteles, capitalistmo contra socialismo e assim por diante. Porém, a situação de meio-termo dentro desses embates sempre causa muita confusão e acaba desfazendo, diluindo os limites entre os dois elementos até então vistos como antagônicos, excludentes. Assim, surge uma espécie de "terceira via" que incomoda muito aqueles que refletem sobre outro embate dicotômico, que é o alvo de nossa discussão aqui: purismo versus hibridismo. 

A era da pureza

Entendamos aqui como purismo a tendência que muitas pessoas tem de de se posicionarem contra a mistura, o que faz com que sua organização de pensamento seja binária. Para essas pessoas, seria inadmissível que um elemento A pudesse incorporar características de um elemento B, ou seja, ou você é homem, por exemplo, ou mulher; ou você é rico ou pobre, etc. Mesmo que casos que desafiem essa visão binária do mundo ocorram à perder de vista, tal purismo tem sido, talvez até hoje, na maior parte das nações, o pensamento majoritário (nem sempre da maioria númerica, é bom salientar). 


Nem uma coisa, nem outra

Parece discurso da Marina Silva, mas com a natural interação social entre os povos, as ideias que eram tidas como absolutas para uns têm tido seus limites atenuados ou, em muitos casos, completamente destruídos. As concepções e convicções de ambos os lados são permanentemente transgredidas, criando um elemento destoante: eis o híbrido, um elemento que ganha cada vez mais força, tanto que, se nos inspirarmos pelos estudos filosóficos das últimas décadas, torna-se cada vez mais difícil conceber uma única realidade, bem como conceber nossa realidade como imutável e absoluta.
Mas por que cargas d'água falamos disso aqui, num mero blog literário? A resposta é simples: o hibridismo tem sido um dos pontos principais a se discutir também nas artes, especialmente dos anos 80 para cá. Mais ainda: há um discurso presente em boa parte dessas obras em favor desse hibridismo.

Como assim, discurso em favor do híbrido? Para explicar melhor, tomamos como exemplos três obras distintas, como já é costume aqui no blog, de campos da arte igualmente distintos. Primeiramente, veremos o caso na trilogia Matrix (em especial, o terceiro filme, Matrix Revolutions [2003]). Em seguida, nuances desse hibridismo no anime Kill la Kill (2013) e, por fim, no campo da literatura, observando Rei Rato, de China Miéville (2011). Será que dá para relacionar obras tão diferentes de acordo com o tema aqui de nosso debate? É o que veremos logo mais.

Continua...

08/10/2014

O que a arte nos ensina (parte I)


Ultimamente tenho visto/ ouvido por aí muitas pessoas falarem algo que me incomoda. Tais pessoas dizem aprovar/ desaprovar uma obra "porque ela ensina..." sinceramente, acho esquisito esse tipo de discurso, posto que é o fato de uma obra ensinar algo é um critério muito maleável e passível de interpretação, extremamente vago. Citemos um exemplo para clarear a situação. 


Nos últimos tempos, tenho visto que há certa rejeição a algumas novelas do horário nobre que trazem homossexuais e questões sobre o preconceito que sofrem como parte principal da trama. Segundo algumas pessoas, tal trama é ruim e a novela é uma bosta porque ensina o telespectador a ser homossexual. Pior: incentiva as crianças que assistem a "liberarem geral". 
Vou evitar entrar no caráter homofóbico de tais opíniões, pois não é bem esse o foco. O problema em questão é a noção de que a novela ou qualquer outra obra de arte seja uma espécie de "professora" e que, sendo assim, seja obrigada a ensinar alguma coisa. De fato, a arte pode nos ensinar muito, mas definitivamente essa possibilidade não é determinante na avaliação de tal obra. Ainda tomando como exemplo a novela, ela não é boa ou má por promover os "valores da família" ou por "propagar o respeito à diversidade", pelo simples motivo que tais avaliações também são maleáveis e variam tanto de indivíduo para indivíduo (enquanto para um estamos respeitando as diferenças de cada pessoa, para outro é uma pouca vergonha) quanto em situação diacrônica - ou seja, com o tempo as pessoas podem simplesmente mudar de ideia acerca de qualquer assunto.
Diante do exemplo, o que podemos então ter como critério confiável na avaliação de uma obra? Bom, isso renderia novos posts (e devem realmente render), mas uma coisa é certa: é preciso ter em mente (o que poucas pessoas têm) que é preciso dissociar ao máximo possível a figura do autor da obra, bem como separar nossas convicções pessoais do contexto representado na obra avaliada. Voltamos em breve com mais exemplos.

Continua...

Foto: Clara e Marina, personagens de Em família, de Manoel Carlos.

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