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24/04/2017

Do que eu falo quando falo em fantástico - PT1




A literatura fantástica está comigo há muito tempo. Tornei-me, inclusive, pesquisador desse tipo de história e, como consequência, o fantástico vira e mexe aparece em minha prosa. Entretanto, costumo perceber que muitas pessoas ainda se perdem frente ao fantástico, talvez pela diversidade de manifestações apresentadas nas artes ou mesmo pela diversidade de percepções dos mais variados artistas frente ao tema. Com base nisso, uma vez pensando em lançar uma coletânea de contos do tipo, resolvi devanear um pouco sobre o que entendo sobre isso, tanto para meu próprio estudo como para a reflexão do leitor que também seja entusiasta do assunto.

São vários os autores que estudaram o fantástico. Dentre eles, costumo priorizar dois por causa de suas linhas de pensamento distintas. Tzvetan Todorov, talvez o teórico mais conhecido sobre o assunto, acreditava que o fantástico fosse um gênero em que os personagens se deparam com algo que desafia as leis do real, projetam seu desconforto (muitas vezes associado a medo) aos leitores e a narrativa termina sem que se possa adotar uma explicação para o fenômeno. Por outro lado, Irene Bessière parte da mesma ideia de inexplicabilidade frente a um evento que rompe as normas da realidade, porém o tratando mais como um recurso narrativo como outro qualquer e não necessariamente um gênero. Outros estudiosos têm se debruçado sobre o assunto, mas é fato que eles sempre se amparam a ambas as perspectivas apresentadas. Sendo assim, recomendo uma lida nos dois citados para quem desejar mais se aprofundar sobre o tema.
Algumas pessoas não têm interesse tão forte a ponto de estudar teoria, o que requer muito conhecimento prévio e dedicação. Talvez essas pessoas se deliciem com leituras um pouco menos densas, como o depoimento de autores sobre sua visão sobre o fantástico. Apesar de definições bastante imprecisas, podem servir de ponto de partida mais prazeroso. Vale uma lida o artigo curtinho de Julio Cortázar, “Do sentimento do fantástico”, em seu famoso Valise de cronópio. Metafórico como sempre, o autor comenta o fantástico a partir da história de um cachorrinho que olha fixamente algo numa parede. Algo que nós não sabemos o que é. Gosto da metáfora por apresentar bem  a base da narrativa fantástica: falar sobre o que não sabemos o que é. Assim, temos uma narrativa que se ampara em dilemas, paradoxos e mistérios. Mas espere um momento, pensará o leitor, se a base do fantástico é não compreender o que acontece, o grande dilema da literatura brasileira (se Bentinho é ou não corno)  poderia ser tratado como um evento fantástico? Na verdade não, pois ainda precisamos de um elemento que surja na narrativa que seja capaz de desafiar a realidade, ou como costuma dizer David Roas, que seja capaz de desafiar a nossa noção de realidade, já que em tempos de pós-modernidade se torna impossível concebê-la como uma só.  Agora o que parecia difícil se torna ainda mais, já que o leitor deve concluir que se o fantástico se move através da nossa percepção do real, talvez o que seja fantástico para mim não o seja para quem vive em outra região ou outra época. Falando num português mais prolixo, o fantástico depende de nossa percepção do real tanto de forma sincrônica quanto diacrônica. Vejamos um exemplo: no século XIX, era possível encontrar artigos científicos relatando a combustão espontânea, ou seja, casos em que pessoas beberam todas e acabaram por isso pegando fogo sozinhas. Com os avanços nas pesquisas, hoje sabemos que isso tudo não aconteceu e muitos casos que pipocam por aí são facilmente desmascarados. Ou seja, hoje tal evento seria um acontecimento fantástico para nós, mas não desafiaria a realidade de séculos atrás.  O leitor então pode concluir que o fantástico é um gênero/recurso interdependente não só de sua estrutura, mas também da nossa relação com ele e o contexto em que ele se encontra - tal como ocorre com o erotismo, acredito eu.
Tendo introduzido estas primeiras noções sobre o tema, continuo o que tiro da minha visão sobre esses tão variados estudos e narrativas.
Até lá.


PS: Sim, o título deste artigo é inspirado em Haruki Murakami. 
PS2: Referências serão colocadas no final da série de postagens. 

20/02/2017

Quem tem medo do black mirror?







Muitas pessoas em meu círculo de amigos rasgaram os mais pomposos elogios à série inglesa Black Mirror, uma das mais assistidas da atualidade. Como não sou lá tão aficionado por séries, ignorei os comentários por um bom tempo. Entretanto, a quantidade e o conteúdo de alguns deles começaram a me intrigar. Ouvi de colegas que eu sequer dormiria se assistisse.  Estaria eu ignorando um novo clássico do horror? Ora, mas a série não é uma ficção cientifica? Pois bem, o hype foi tão forte que acabou me obrigando a assistir.
De fato, Black Mirror é uma boa série, mas não me parecia genial-espetacular-lacradora-de-tirar-o-sono como pregavam.  Posso até comentar boas sacadas que vi em muitos de seus episódios ou também os vários problemas. Entretanto, o foco desse texto tem mais a ver com parte da recepção que a série teve a ponto ser de recomendada como assustadora. Afinal, que medo é esse que foi visto por tanta gente assim? Estaria eu sofrendo da síndrome do diferentão?
Para nos orientar na nossa reflexão, tomemos como base a ideia de que tememos aquilo que pode nos representar uma ameaça, especialmente à integridade física. Outra definição bastante famosa seria a lovcraftiana de que tememos aquilo que não conhecemos, aquilo a que não podemos atribuir uma explicação lógica. Com base nisso, o que a série nos apresenta que poderia ser visto como algo a temer? Tecnologia, diriam muitos dos amigos. Sim, óbvio, tecnologia. Está sugerido desde o título da série, que remete às telas de aparelhos eletrônicos que usamos e dos quais vamos nos tornando cada vez mais dependentes. Sim, seria possível explicar esse medo do espectador como o medo de se perceber cercado, talvez até dominado pela tecnologia. Todavia, o medo seria válido? Não estaríamos temendo a coisa errada?
Se partirmos do princípio do significado do termo, tecnologia (vem do grego) pode ter com ideia central a de criação. É possível então afirmar que parte do temor causado pela série se deve ao seu tratamento frente a tecnologias com as quais já estamos lidando (ranking de reputação nas redes sociais, por exemplo), ou que, num futuro próximo, poderiam se tornar viáveis, como as lentes que podem gravar o que você vê e reproduzir posteriormente em outros dispositivos. A dependência de aparatos tecnológicos é amedrontadora à maior parte da população por vários motivos. Poderíamos destacar aqui a cultura de que somos autônomos, independentes. Daí o medo seria plausível, já que costumamos ter sempre a impressão de que o mundo se move mais rapidamente do que nossa capacidade de interpretação dele. O medo então seria não da tecnologia, mas de ficar para trás, o que nos isolaria de nossos grupos sociais e acarretaria em danos para o nosso bem-estar. Mesmo assim, cultuamos a ideia de que a tecnologia é culpada por estes eventuais danos. Isso explicaria o medo que temos ao assistir ao episódio “Odiados pela nação” (foto 2), em que assassinatos estão ligados a hashtags de promoção do linchamento de figuras odiadas. Outra razão seriam nossos princípios religiosos, que muitas vezes envolvem uma cultura de que os males que assolam nossa sociedade são um forte indício de um fim para a humanidade. Exagero? Lembremos que, há poucos anos, especulávamos a utilização de chips que facilitassem a organização de dados pessoais e que, graças à difusão de informações falsas, resultaram na crença de que o governo pretendia “instalaro chip da besta nas pessoas”, o que causou a manifestação de parte da população que chegava a afirmar que a presidente seria o próprio demônio. 

Uma vez compreendido o porquê do temor, outra questão mais específica se faz presente: esse temor da tecnologia seria justo? Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o espelho é um símbolo que representa na maioria das culturas a revelação da verdade, a alma, a essência do ser. Tal como a bruxa malvada em Branca de Neve, a verdade parece não ser muito interessante quando vai contra a figura pública que criamos de nós mesmos. Some então à simbologia do espelho a semântica proporcionada pelo signo negro (ausência de luz, representação de um contexto maléfico, obscuro e que mal podemos compreender) e chegaremos a uma acepção pouco enfatizada do que significa black mirror: aquela verdade que gostaríamos de esconder por nos lembrar o que temos de pior, nossos medos, preconceitos, pulsões hedonistas que nem sempre coadunam com os princípios morais, éticos ou religiosos que pregamos frente a nossos círculos sociais. Com base nessa proposição, acredito que fica mais fácil entender por que o público em geral se assusta com a série. Além de desfazer a nossa ilusão de autonomia, mostra que nós, como Narciso, não somos tão perfeitos assim. O black mirror é tão poderoso que nos faz aceitar os mais esdrúxulos acontecimentos como verdade, tal como os milhares de mitos da deep web, desconsiderando todas as benesses e facilidades que ela eventualmente pode proporcionar (a possibilidade de comunicação sem nenhuma censura por exemplo).  Black Mirror, a série, apresenta esse lado negro humano (muitas vezes tendendo ao exagero, é verdade) e nós, como já de costume, precisamos de um bode expiatório que nos possibilite viver sem perceber que o mal (num sentido mais comum da palavra) não está necessariamente na tecnologia, mas em nós, no que fazemos com ela.
Mediante o exposto, como acabar com o medo do black mirror? Pergunta difícil, sem resposta. Mas estamos tentando respondê-la. Tentamos quando vemos as facilidades que a tecnologia nos tem proporcionado: carros elétricos, ferramentas de comunicação como as redes sociais, informação e conhecimento cada vez mais acessíveis, realidades virtual e aumentada, impressão 3D – a lista é infinita, pelo que vemos. Entretanto o black mirror está aí e, como todo espelho que se preze, nos sugere que olhemos nosso reflexo e reflitamos sobre como temos agido. As perguntas que posso estender ao leitor seriam: esse reflexo é tão assustador assim para você? Quando você se olha no espelho, o que você vê? A roupa de alferes, como Jacobina em O espelho? Alguém que bloqueia os perfis que te aparecem com visões de mundo diferentes da sua? De ser o linchado? De ser o linchador? A pergunta do título deste ensaio tem menos a ver com a série do que parece, não?

31/07/2015

A importância das epígrafes



O processo de produção de um texto em prosa requer atenção a diversos recursos que utilizamos para a construção de uma obra perfeita - ao menos aos nossos olhos. Dentre esses recursos disponíveis em nossa paleta de cores literárias, lá estão as epígrafes. Esses texto pretende divagar um pouco sobre a função delas na narrativa.
Seria possível ao escritor conceber a epígrafe como uma espécie de termo acessório, visto que ela não chega a ser algo de presença obrigatória (realmente, em arte é muito difícil acreditar que algo tenha a obrigação de estar presente). Entretanto, o bom escritor pode fazer uso de uma epígrafe de forma que a desloque da condição de acessório para a de essencial à diegese. Conta-se que boa parte dos escritores ainda veem a epígrafe como um adorno, "cereja de bolo" ou algo do tipo, o que enfatizaria a nossa visão dela como termo acessório. Entretanto, é possível considerar tal recurso como indissociável da narrativa vigente, se levarmos em consideração os estudos de Wayne C. Booth, que dizem, não bem com essas palavras, que epígrafes, notas de rodapé (ao menos as do próprio autor ou mesmo de um personagem da trama), títulos, elementos de composição secundária fazem parte de uma "ótica" criada especificamente para aquela obra. Se levarmos em consideração esse ponto de vista, fica difícil não prestar atenção à importância de uma epígrafe, bem como de sua relação com os acontecimentos narrados.  
Sendo assim, a epígrafe ganha função que vai muito além de "capturar a atmosfera" da obra, podendo até servir de prolepse (antecipando eventos importantes que ainda serão apresentados ao leitor) ou ironizar um contexto ali exibido.
Alguém que leve em consideração esse tipo de interpretação textual tenderá a sempre buscar compreender a função estética de uma epígrafe específica. O autor, por sua vez, se sentirá forçado a pensar essa mesma função, o que abre um novo plano de diálogo entre autor, obra e leitor. Penso, por exemplo, na epígrafe de Deixe-me entrar, de John Lindqvist:

I never wanted to kill
I am not naturally evil.
such things I do
Just to make myself
more attractive to you.
have I failed?
Morrissey, Last of the famous international playboys.

Percebamos a relação intertextual entre a obra de Lindqvist e a epígrafe, retirada de uma canção do Morrissey. A ideia de matar para tornar-se mais atraente a quem amamos ganha dimensões diferentes ao considerarmos que Deixe-me entrar conta a história de um vampiro (as adaptações para o cinema são também bastante conhecidas). Não quero encher esse texto de spoilers, mas convido o leitor a examinar com mais cuidado a força que tem a epígrafe nessa narrativa. 
No mais, ao leitor, deixo aqui a sugestão de prestar mais atenção ao recurso estético de que falamos. Talvez, fosse divertido selecionar suas epígrafes preferidas. Já ao escritor, sugiro a observação minuciosa de seu texto, perguntando-se até onde é necessária uma epígrafe e, caso ela exista, que relações semânticas apresentamos aos leitores a partir dela.

01/05/2015

Redução da maioridade civil: seria possível?


Nos últimos dias, consultei alguns amigos sobre a possibilidade de ampliar o leque de assuntos a discutir aqui no blog. Muitos temas foram sugeridos e resolvi comentar um  pouco sobre eles. Para iniciar essa nova fase, resolvi comentar algo que tem levantado polêmica em nosso país: a redução da maioridade penal. 

Sempre que alguém inicia essa discussão logo se posiciona. Para não fugir ao costume, farei o mesmo: sou contra a redução. Entretanto, pretendo analisar uma das justificativas mais repetidas pelos defensores da redução, conforme exemplifico em um tweet que podia ser o seu ou de qualquer outro colega:



Façamos uma reflexão mais voltada a esse discurso em especial. O sujeito afirma que um menor de 16 anos deveria poder ser preso, já que também pode votar. Qual o problema de tal afirmação? O mais comum de muitas opiniões emitidas pela internet: não paralelismo, ou seja, não é coerente. Eis a seguir o porquê.
Dentro da afirmação temos duas ideias principais que estão sendo comparadas e postas erroneamente em pé de igualdade. A primeira diz respeito ao fato de um menor poder votar e a segunda de poder ser preso e julgado como adulto. Na primeira nós temos um direito civil, o de poder votar e eleger seus governantes; na segunda, uma obrigação, uma punição. Diante disso fica impossível que a comparação tenha lógica já que são distintas. Se quiséssemos uma comparação mais coerente, deveríamos comparar o ato de poder ser preso com outro que pudesse levar o menor a prisão, ou seja, deveríamos relacionar um castigo com um crime, não com um direito. 
Provada a incoerência discursiva, peguei-me pensando se, ao invés de partirmos de uma comparação acerca do crime, partíssemos dos direitos. Ora, já que a maior parte da população se declara a favor da redução da maioridade penal (tanto que essa lei deve sim ser aprovada), por que não lutamos pela "redução da maioridade civil", ou algo assim? Posto que, segundo essa parte da população, ele pode ser penalizado por um crime, já que pode votar (como se votar fosse também um crime), por que não pedir que todas as "vantagens" de um maior de idade lhe sejam concedidas? Ora, se um menor de 16 anos pode votar, também poderia casar, comprar, comercializar e consumir álcool; dirigir; prestar concurso público; casar sem autorização dos país; consumir e comercializar pornografia; portar (desde que preencha os demais pré-requisitos) armas de fogo; viajar de avião sozinho, entre tantas outras coisas que os "adultos" podem fazer. Já que a redução da maioridade penal lhe traria uma cerca de novas situações em que pudesse ser visto como criminoso (um jovem de 16 namorando uma garota de 14, por exemplo), por que não lhe permitir que, por outro lado, desfrute de uma condição de civil maior de idade aos 16 anos? Você seria contra isso?
Independente de sua resposta, perceba que as ideias expostas aqui estão mantendo certo paralelismo, ou seja, tentando ser mais lógicas. O que se mostra aqui não é exatamente uma campanha pró-redução da "maioridade civil", mas mostrar que a redução da maioridade penal acarreta uma reflexão bem mais complexa do que parece e, exatamente por isso, não deva corresponder às expectativas daqueles que a defendem.  Outras soluções deveriam ser sugeridas para maior eficácia no combate ao crime e na recuperação de menores infratores. 

20/04/2015

Deus é um standard de Jazz?

Lerdo como uma tartaruga, cá estou comentando os assuntos que você já deve ter cansado de ouvir falar. Eis que nos últimos dias, Ed Motta deu um piti em seu facebook reclamando da presença de brasileiros em seus shows no exterior. Como sempre, aqueles que adoram atirar a primeira pedra (e as seguintes) malharam o pau e o execraram, mesmo quando, tendo visto o imbróglio causado, o artista resolveu pedir desculpas. Não adiantou muita coisa, já que as Sheherazades da vida sempre pregaram que, já que falhou, que arque com as consequências. Não me admiraria se hackeassem Ed e jogassem na rede possíveis nudes seus. 
O quê? Defendendo um cara que não valoriza o Brasil? Não, não é bem assim. Há muita coisa que pode ser debatida a partir do fato ocorrido. 

Sim, Ed Motta errou feio, errou rude, mas não exatamente em tudo. Sua conclusão é errônea, assim como o modo com que se expressara. Entretanto, é fato que muitas vezes o público, digamos assim, extrapola. Algumas pessoas passam da conta na bebida, outros, por sua vez, não são profundos conhecedores da obra do artista que vêem; tal como chamamos hoje em dia, esses são os posers. Alguns espectadores são comumente invasivos, invadem palcos, camarotes, mesmo quando o artista, depois de uma apresentação exaustiva, só precise de uns cinco minutos de descanso. Não raro, aparecem na mídias matérias sobre complicações entre artistas e seus fãs, ou mesmo questionamento de quão fãs estes fãs são.
O problema, como disse, é a conclusão feita pelo cantor. Ao pedir que brasileiros não mais o acompanhem, digamos assim, ele cria uma espécie de redoma, uma sacralização de sua música - algo que, ao meu ver, é bastante nocivo. Tal comportamento é bastante comum na literatura; muitos artistas partilham da opinião de que a literatura e arte são sagrados, afastando os "pobres mortais". O mais engraçado é que, vez ou outra, os mesmos artistas reclamam de não serem compreendidos pelo público em geral. O importante a perceber aqui é isto: os artistas que acreditam na sacralização da arte tendem a impedir a aproximação do público. Por outro lado, percebendo a falta de boa vontade do artista, o público se afasta e, oportunamente, produz sua própria expressão artística no intento de se satisfazer. Ou seja, Ed Motta, embora certo em se chatear com a conduta de alguns espectadores, erra feio em se sacralizar. Ora, não dizem que Deus é brasileiro? Então por que Deus só ouve standards de jazz? Por que não um pancadão do MC Pikachu? Ou será que, de fato, Deus não está nem aí para o Brasil?
Continuando com a hipótese de um Deus brasileiro, acredito que, em toda sua sapiência, Deus deva tratar a "brasilidade" com a complexidade que lhe é merecida, ou seja, sabendo da pluralidade de um povo que vive em um país tão extenso e singular. O brasileiro do José de Alencar não exclui o de Cláudio Assis, que não exclui o de Villa Lobos, nem o de Mano Brown, Vanessa da Mata, Ana Paula Valadão e, claro, também não exclui o de Ed Motta. Ao ter um comportamento excludente com relação aos diversos tipos de público, acabamos por tirar dele a oportunidade de se abrir a novas experiências artísticas e intelectuais, o que é de fato muito salutar tanto para a arte quanto para o público. A troca de experiências acontece o tempo todo, basta observarmos o quanto mais artistas tendem a se "misturar" uns com os outros. Tom Zé, só para ficar em um exemplo, já colaborou com Mallu Magalhães, Emicida e tantos outros, sem uma necessidade de manter uma hierarquia e sacralização do que faz. Talvez Ed Motta teria sido mais feliz em sua conclusão se tivesse agido com o bom humor visto em seu show recente, tirando-lhe as neuras da cabeça e tornando sua apresentação mais aprazível a gregos e troianos.

Por outro lado, nós deveríamos prestar atenção a uma coisa em especial: o fato de um artista ter posições contrárias as nossas não deveria ser motivo para falar mal de sua obra. Ed Motta é um cantor muito bom, um compositor de extrema qualidade. Dizer que, por causa de suas afirmações, ele é apenas um gordinho chato que tem inveja do tio ou coisa assim me faz lembrar daquele boy que foi xingar muito no twitter porque o Restart, segundo ele, não prestava mais por causa de um problema na entrada do show da banda. Ou seja, é necessário saber dissociar o artista de sua obra. O artista é humano, falho, faz merda como qualquer um de nós. Sua obra, por outro lado, possui características distintas, que representam um recorte da realidade. Ao rechaçar a obra de um artista por causa de coisas que tal artista disse ou fez, lembre-se de que Lewis Carrol tem sua obra (Alice no País das Maravilhas) adorada até nossos dias, mesmo tendo sido pedófilo.  

Sendo assim, vejamos que a arte não é algo sagrado. O artista, muito menos. É importante deixar de ser passional às vezes e manter um pouco de paralelismo e coerência na hora de fazermos nossas avaliações, ainda mais em tempos de ânimos exaltados que temos vivido. Deus está para todos (considerando que exista) e, definitivamente, está mais para samba do crioulo doido do que para standard de jazz. 

Amém. ☺

Deixo vocês com um pouco da obra do grande Ed Motta, sensível e intimista, em seu Chapter 9. 


10/02/2015

Glorificando o híbrido - Parte IV (final)

Atenção! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Chegando ao fim de nossa série, depois passarmos pelo cinema (Matrix) e anime (Kill la kill), é chegada a hora de ver um bom exemplo do híbrido na literatura. Para tanto, vamos ver o que acontece em Rei Rato, do mestre da weird fiction China Miéville (foto da direita). 
Numa Londres cerda de criaturas abomináveis que se esgueiram quase invisíveis pelos becos e esgotos, uma dessas criaturas governas todos os imundos ratos da cidade. O conflito começa quando um ser misterioso resolve destruir o Rei Rato: o flautista de Hamelin. Ele tem o poder de, através de sua música, controlar toda a população e fazê-la atender suas ordens. Para cada tipo de criatura, o flautista deveria tocar uma música diferente.
Vendo que não seria páreo para o flautista, Rei Rato decide ir atrás de seu "herdeiro", Saul Gramond. Saul é o híbrido, filho de uma aventura de seu pai com uma humana, que agora terá de despertar seu lado sombrio. Assim, vamos acompanhando toda a adaptação de Saul ao mundo sombrio dos esgotos, tudo acompanhado da batida veloz do jungle e do drum'n'bass. Durante esse aprendizado, o flautista também começa a caçá-lo para que toda a raça dos ratos seja destruída. 

Confronto final

No duelo final entre o flautista e Saul, vemos o quão poderoso é o antagonista, quando, com a música de seu instrumento, faz com que todos os humanos e ratos estejam sob seu domínio, entretanto, Saul consegue escapar do então iminente massacre dentro de uma casa de show, pois ele não é rato, nem humano. Sua hibridez faz com que o flautista não consiga dominá-lo e, assim, saia derrotado. Complementando o encerramento, vemos a clara mensagem política de celebração da miscigenação e da organização de uma sociedade que não se submeta aos caprichos de seus líderes. É possível ver o futuro como um ambiente de preservação da identidade e, concomitantemente, da promoção da diversidade. 

Concluindo

O que podemos ver a partir das três obras aqui apresentadas é que nas últimas décadas, a produção artística a nosso redor parece também ter se preocupado em promover a diversidade étnica e cultural. Escrever é sempre um ato também político e, como tal, serve de material para reflexão sobre nossos rumos em tempos de crises econômicas e políticas separatistas e/ ou persecutórias. Vale a pena ver o que cada um dos híbridos tem a dizer, perceber até onde somos como eles e ver o que podemos aprender com eles. Fica o convite. 

Perdeu as outras partes? Veja aqui as partes I , parte II e parte III da discussão! ☺
 

09/12/2014

Glorificando o híbrido (parte III)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 




Moda, fascismo e muito nonsense em Kill la Kill!

Continuando nosso papo sobre o híbrido nas artes, apresento aos que não são muito fãs de cultura japonesa um dos animes mais badalados dos últimos tempos e importante exemplo para nossa discussão.
Kill la Kill nos apresenta um cenário distópico em que a militarização das escolas é levada a níveis hiperbólicos. Por sinal, hiperbólico porderia ser a melhor palavra para definir o anime, já que tudo é extremamente exagerado: fan service, derramamento de sangue, humor e nonsense. A história ressignifca um monte de clichês, partindo do clássico jovem-que-quer-vingar-a-morte-do-pai. Essa jovem é Matoi Ryuko, que, fazendo uso de uma tesoura-espada, se rebela contra a chefa de sua escola, Kiryuin Satsuki. O negócio vai ficando cada vez mais louco quando descobrimos nossa protagonista favelada na verdade não é humana: é uma criatura híbrida. 
Ryuko usa um uniforme com vida própria, Senketsu, com quem conversa e tem uma relação de profunda amizade. O uniforme sobrevive se nutrindo de seu sangue e, em troca, Ryuko usa seus poderes, que se ampliam ao longo da série. O que não se contava é com a reviravolta digna de novela mexicana: Satsuki também tem interesse em Ryuko para que juntas, possam derrotar Kiryuin Ragyo, verdadeira mãe de Ryuko que está promovendo a destruição do mundo por... roupas!
Segundo ficamos sabendo, criaturas alienígenas minúsculas, chamadas de Fibras da Vida, viajam pelo espaço e se instalam nos planetas para de forma parasitária, vão fortalecendo seus hospedeiros até que estes estejam prontos para ter suas energias levadas, dando origem a novas Fibras da Vida. Isso mesmo, roupas alienígenas que invadem a terra para transformar a Terra numa imensa bola de lã. Como dito, tudo se torna ainda mais absurdo ao Ryuko saber que não é filha de seu pai, mais é uma criatura híbrida, filha de Ragyo com as Fibras parasitas, ou seja, meio humana, meio roupa. 
Por fim, a humanidade vence, mas com a ajuda de Ryuko, que resolve lutar para não ser dominada pelas roupas, algo impossível para qualquer raça inferior como a humana. O resultado é que a união perfeita de Ryuko com seu uniforme que, por estar ligado ao sangue da protagonista, é também híbrido, faz com que os arifícios que as Fibras da vida usam para dominar os demais sejam ineficazes, causando o completo banimento dos aliens da face da Terra, enfim todos podem descansar em paz, sem se preocupar em ser dominados pelo que vestem, bem como vestir o que bem entenderem. 
Diante de uma história tão maluca, à primeria vista, não se percebe muita coisa, pois os exageros propositais da obra fazem com que muita coisa possa passar despercebida. Ou seja, Kill la kill pode paraecer um anime de humor com aliens invadindo a terra, mulheres seminuas em uniformes especiais (espécie de tributo à Sailor Moon, diga-se de passagem) e muito, mas muito sangue. Porém, como se espera de toda boa obra, muitas leituras se abrem sutilmente, como por exemplo o poder feminista da obra, mesmo fazendo uso de artifícios comumente machistas, discussão sobre a  exploração da sexualidade feminina, sobre a militarização das escolas conservadoras e, especialmente para o nosso caso, a representação de um ser único, que se difere dos demais por ter características de dois grupos até então distintos: o híbrido. Sem esse hibridismo, como vimos, Ryuko não conseguiria destruir as roupas alieníginas. Temos então outro grande exemplo de representação de "miscigenação" libertadora. 



No próximo episódio: depois de homem-software e mulher-roupa, que tal vermos um homem-rato? Aguardem!

 Continua...

08/11/2014

Glorificando o híbrido (Parte II)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Tudo bem que nessa parte da nossa dicussão nem seria tão necessário avisar sobre spoiler, já que pode se dizer que todo mundo viu a trilogia Matrix. Sendo assim, pulamos uma introdução mais detalhada e vamos olhar mais de perto os eventos finais de Matrix Revolutions, último filme da série. 
Matrix deixou uma legião de fãs, mas também deixou dúvidas e lacunas com sua estética mais preocupada em sugerir do que em afirmar algo. O resultado é que até hoje temos muitas interpretações sobre o desfecho. É quase unânime a opinião de que os acontecimentos do final são bastante confusos, o que me fez lembrar também do desfecho de Evangelion e sua viagem cheia de parabéns. Proposital ou não, a confusão existe e acabou por enriquecer a obra. 
Destre os principais pontos de confusão, podemos citar o fato de a existência de Neo não ser questionada. Na verdade, o tempo todo os personagens nos sugerem que sabem bem quem ou o que Neo é, mas nós temos essa resposta com convicção, ainda mais quando lembramos de que Neo conseguira usar seus poderes fora da Matrix. Caso semelhante acontece com o Agente Smith. A pergunta que fica é: Neo é um programa? Um humano? Tais questionamentos acabaram por fazer com que alguns espectadores acreditassem que a realidade onde Neo vive também estivesse sendo uma simulação, ou seja, a chamada teoria da Matrix dentro da Matrix. 

O que propomos aqui é que algumas respostas a estes questionamentos podem ser encontradas ao observar os procedimentos narrativos do filme. É possível que em algumas obras fantásticas ou com elementos próximos dele, possuam algo que destoa da linearidade esperada, algo que "não bate" com o que se apresenta, algo que fere e transgride as leis do que o leitor/ espectador define como real. Ele não obedece à realidade, mas no entanto continua lá e, até certo ponto, permanece imcompreensível. Se tomarmos como base essa transgressão da realidade aqui comentada e relacionando-a aos eventos de Matrix Revolutions, é possível ter uma nova interpretação do que é Neo. Ele é o elemento fantástico, ele não é um programa, mas também não é um humano; é, na verdade, uma fusão, um ponto de convergência ou transição entre eles: é o híbrido. De acorodo com o que vemos na série, o híbrido vence, ele é o escolhido, está acima dos demais e, sendo assim, o único a romper com o sistema social que vemos. A revolução vem da união. 
Curioso é que Smith também levanta as mesmas questões, mas ele não quer salvar ninguém: quer corromper, destruir. À primeira vista isso derrubaria a nossa tese, mas por outro lado a enfatiza,  já que ressalta que o purismo de um humano ou programa se mostra insuficiente perto de alguém com as caracteríscas dos dois. Percebamos o quanto de novos caminhos abrimos olhando sobre esse ponto de vista. 
No próximo capítulo, veremos que Matrix não está tão distante assim de Kill la Kill. Até breve!
Segue uma musiquinha aí pra animar.


Continua...

15/10/2014

Glorificando o híbrido (parte I)


Saudações, meus amigos! Aqui vou eu aproveitar que estou com menos preguiça de pensar e trazer novos debates. Sem mais delongas, vamos nessa!
Em toda a história da humanidade temos muitos embates ideológicos e, em sua maior parte, todos apresentados de forma binária, maniqueísta: bem contra mal, Platão contra Aristóteles, capitalistmo contra socialismo e assim por diante. Porém, a situação de meio-termo dentro desses embates sempre causa muita confusão e acaba desfazendo, diluindo os limites entre os dois elementos até então vistos como antagônicos, excludentes. Assim, surge uma espécie de "terceira via" que incomoda muito aqueles que refletem sobre outro embate dicotômico, que é o alvo de nossa discussão aqui: purismo versus hibridismo. 

A era da pureza

Entendamos aqui como purismo a tendência que muitas pessoas tem de de se posicionarem contra a mistura, o que faz com que sua organização de pensamento seja binária. Para essas pessoas, seria inadmissível que um elemento A pudesse incorporar características de um elemento B, ou seja, ou você é homem, por exemplo, ou mulher; ou você é rico ou pobre, etc. Mesmo que casos que desafiem essa visão binária do mundo ocorram à perder de vista, tal purismo tem sido, talvez até hoje, na maior parte das nações, o pensamento majoritário (nem sempre da maioria númerica, é bom salientar). 


Nem uma coisa, nem outra

Parece discurso da Marina Silva, mas com a natural interação social entre os povos, as ideias que eram tidas como absolutas para uns têm tido seus limites atenuados ou, em muitos casos, completamente destruídos. As concepções e convicções de ambos os lados são permanentemente transgredidas, criando um elemento destoante: eis o híbrido, um elemento que ganha cada vez mais força, tanto que, se nos inspirarmos pelos estudos filosóficos das últimas décadas, torna-se cada vez mais difícil conceber uma única realidade, bem como conceber nossa realidade como imutável e absoluta.
Mas por que cargas d'água falamos disso aqui, num mero blog literário? A resposta é simples: o hibridismo tem sido um dos pontos principais a se discutir também nas artes, especialmente dos anos 80 para cá. Mais ainda: há um discurso presente em boa parte dessas obras em favor desse hibridismo.

Como assim, discurso em favor do híbrido? Para explicar melhor, tomamos como exemplos três obras distintas, como já é costume aqui no blog, de campos da arte igualmente distintos. Primeiramente, veremos o caso na trilogia Matrix (em especial, o terceiro filme, Matrix Revolutions [2003]). Em seguida, nuances desse hibridismo no anime Kill la Kill (2013) e, por fim, no campo da literatura, observando Rei Rato, de China Miéville (2011). Será que dá para relacionar obras tão diferentes de acordo com o tema aqui de nosso debate? É o que veremos logo mais.

Continua...

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