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06/02/2017

Resenha: "Naufrágio entre amigos", de Eduardo Sabino



VISITA AOS COÁGULOS DA MEMÓRIA



A literatura é muito vasta e essa vastidão é fortemente alimentada pelo nosso comportamento frente à história. Isso faz com que algumas tendências nessa arte se sobressaiam. Uma delas é a de uma literatura interessada na preservação das memórias, tal como acontece em Naufrágio entre amigos, segundo livro de Eduardo Sabino. Aqui, veremos uma seleção de 12 contos que podem ser vistos como um tributo às memórias. Todavia, as memórias a que somos apresentados não são bem as do narrador (ele, em grande parte dos contos, parece ser o mesmo), e é aí que o livro cresce em riqueza para o leitor.

Como disse, a literatura é feita de tendências. No que diz respeito à forma com que o gênero conto tem sido abordado, uma é bastante famosa e parece ser a que Sabino prefere: a que popularmente conhecemos como “teoria do iceberg” de Hemingway. Essa tendência consiste em escrever de forma que algo mais importante esteja “submerso”, ou seja, o mais importante de um conto não se conta, fica cifrado nos interstícios da narrativa que está à mostra. Também por isso é possível compreender a prosa de Sabino a partir do pressuposto de que “um conto sempre conta duas histórias” (PIGLIA, 2004, p.89). Isso faz com o que vejamos os contos da compilação de forma mais ampla. Eis então a grande beleza dos contos de Sabino: não estamos lidando apenas com as memórias de um narrador, mas de um povo, de um coletivo, de uma comunidade. Percebendo isso, o leitor poderá prestar atenção ao que está fora da ponta do iceberg: as memórias que se diluem e se costuram entre a memória do narrador. Para ficar mais claro, peço permissão para comentar com mais detalhes (spoilers) o conto “Jogo de três”:


Nos sábados, Fabiano abria mão da vontade de pensar e jogávamos futebol e corrida. Mas só uma hora. Depois vinha um jogo de fases ao estilo adventure, dois jogadores. Power rangers era um game híbrido de luta e aventura, nosso estilo preferido quando estávamos os três. Havia um castigo a quem perdesse no futebol: jogar com o ranger rosa. Um dia Fabiano o escolheu e não havia perdido um jogo no futebol. “Eu acho que rosinha é a sua cara”, Lucas disse, rindo sozinho (SABINO, 2016, p.98).


O conto narra as memórias de adolescência de Eduardo com mais dois amigos, Fabiano e Lucas, que sempre se reuniam para jogar videogame, seja em casa ou nos fliperamas de Nova Lima - MG. A citação mostra a típica lembrança lúdica do período, mostrando-se até um tanto boba à primeira vista. Entretanto, quando ao decorrer da narrativa, ficamos cientes de que Fabiano, o colega que era vítima das piadas, revelara anos mais tarde sua homossexualidade, o trecho ganha outra leitura. Não mais as memórias saudosistas do narrador, mas a história de um rapaz muitas vezes incompreendido por causa de sua singularidade. A relação entre as duas histórias se torna ainda mais tensa quando vemos que Lucas, o outro amigo, ao crescer, apresentava um comportamento bastante preconceituoso, o que o impedia de perceber o afastamento de Fabiano da turma:


Então pergunto sobre Fabiano. “Tem visto? Vocês ainda conversam?” Lucas abaixa os olhos, semblante triste, e então vejo brotar uma raiva onde antes havia uma expressão de mansidão absoluta. “Aquele lá se perdeu. Só anda com as amiguinhas agora. Tá atolado no pecado”. Faz então um discurso atabalhoado, sem coesão, citando passagens do antigo testamento e dizendo que o mundo de hoje está pervertido e sem valores. Como Sodoma e Gomorra.

Faço um sinal para o garçom quando ouço o termo ditadura gay. (SABINO, 2016, p.107-108).


A situação culmina em um final forte e que fará o leitor pensar bastante sobre como lidamos com nossas memórias. Os outros contos seguem processo parecido. Recomendo atenção às pessoas com quem o narrador se depara. Elas são a grandeza das histórias de Sabino.

O leitor atento já deve ter percebido que falo aqui de um narrador, mas de vários contos, porque a voz que narra, salvo em “Assombros”, parece ser sempre a mesma. Isso confere a Naufrágio entre amigos uma característica especial: a composição dos contos segue tamanha confluência que é possível ignorar as fronteiras do gênero e ler a obra como um romance memorialista, em que cada a capítulo somos apresentados a diferentes eventos da vida de Eduardo, o narrador, e sua relação com as figuras com quem crescera na cidade de Nova Lima. Como costumo dizer, pessoas muito apegadas a gêneros podem ver essa característica como defeito, mas elas devem primeiro ver que não há motivo para alarde, já que os contos, apesar de um eixo temático em comum, possuem autonomia e independência entre si.

Para não ficarmos apenas nas flores, algo que me incomodou em alguns contos foi certa dispersão em assuntos pouco produtivos para o final, como acontece no conto-título. Isso não significa que o conto seja fraco, mas que seus eventos iniciais poderiam ser exibidos de maneira mais concisa, sem tantos detalhes, já que não contribuem diretamente para o desfecho. O mesmo pode ser visto em “Discografia do fim”, embora o conto deva agradar os mais saudosistas pela quantidade de referências à música – especialmente dos anos 90. Por esse ponto de vista da concisão, contos mais curtos como “Assombros” e “Estouros” demonstram apuro impecável, talvez este último o carro-chefe da coletânea – destaque ao desfecho arrebatador causado pelas duas histórias costuradas na narração.

Já o último conto do livro, “Buracos”, retrata bem outra característica de Sabino: o flerte com a literatura fantástica. O conto apresenta a cidade de Nova Lima vivendo uma “epidemia” de buracos. Buracos surgem no chão e as pessoas os procuram para se suicidarem. A estrutura da narração faz com que lembremos daquele fantástico popularizado na américa latina por Rulfo, Cortázar e cia., em que os acontecimentos que desafiam a realidade são regra, não exatamente exceção dentro da narrativa.

Por fim, podemos dizer que Naufrágio entre amigos é uma obra bastante forte e que revela um autor já com maturidade e rumos promissores. Recomendada a todos os que buscam entender como se dá a preservação de uma memória coletiva e afetiva de um lugar, dos pequenos espaços da vida cotidiana.


Referências

PIGLIA, Ricardo. Novas teses sobre o conto. Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 95 – 114.

SABINO, Eduardo. Naufrágio entre amigos. São Paulo: Patuá, 2016. 

23/01/2017

Resenha: Ventre urbano (Letícia Palmeira Lizziane Azevedo - org.)




Conheço um pouco do contexto literário da Paraíba para afirmar sem medo de equívoco que ela, ao menos no que diz respeito à literatura, caminha muito longe de projetar as mulheres que se enveredam por essas áreas. Basta o leitor puxar à memória e verá que, do clássico José Lins do Rego aos contemporâneos Rinaldo de Fernandes, Arturo Gouveia e Roberto Menezes, os nomes das mulheres não costumam circular. Talvez tenha sido essa a motivação por trás de Ventre Urbano (Penalux, 2016), coletânea de narrativas curtas compostas de autoras contemporâneas paraibanas ou radicadas no estado organizada pelas escritoras Lizziane Azevedo e Letícia Palmeira. Comentaremos agora um pouco do resultado da coletânea.

            Evidente que em antologias os critérios de seleção dos autores são sempre controversos e tidos como injustos. Por causa disso, talvez alguns leitores estranhem o elenco de Ventre Urbano pela ausência de alguns nomes, como a conhecida Marília Arnaud e a premiada Renata Escarião, mas receberá em troca novos (e bons) nomes para acompanhar, tais como Mayara Vieira e Romarta Ferreira (ainda inéditas, ou seja, sem nenhuma publicação individual), somadas às estreantes no gênero, já conhecidas pela poesia, Anna Apolinário, Cyelle Carmem e Amanda Vital. Como cereja do bolo, Maria Valéria Rezende, premiada com o Jabuti de 2015, também dá as caras. O resultado que se têm é, como já enfatizado, bem comum: ausências sentidas, mas presenças que trarão boas surpresas.

            De um modo geral, a antologia se apresenta muito bem e cumpre sua premissa de dar visibilidade à produção literária das mulheres na paraíba. Saliento também que mesmo a capa é assinada por uma artista local, Luyse Costa, e dá uma impressão muito boa à obra. Entretanto, a coletânea se vende como feminista – a julgar pela introdução feita pela organizadora:


Eu preciso ser feminista para defender o que muitas mulheres, do passado que pouco sabemos, defenderam. Eu, que queria apenas fazer festa à literatura, me vejo na necessidade de dizer que, embora muitas mulheres ainda estejam vivendo na miséria e no silêncio, nós estamos aqui para que suas vozes sejam ouvidas (p.17).


            Contudo, parece não ter sido uma preocupação das autoras, já que isso não é tão presente assim nos textos (há algumas exceções, falaremos delas mais à frente). Talvez a presença de uma convidada mais engajada à luta e aos estudos de gênero (Débora Gil Pantaleão, por exemplo) engrandecesse esse propósito.

Essas primeiras observações não são o foco da minha resenha, deixo isso a alguém mais especializado em estudos feministas, citando aqui apenas para suscitar reflexões das mais diferentes aos leitores. O foco elegido aqui, sendo assim, será o conto em si, tentando deixar de lado dados biográficos e características das autoras (até porque muitas delas são minhas amigas pessoais, não seria interessante tomar isso como critério de valor).

            Como já afirmado, é natural que antologias oscilem em seus resultados, e com Ventre Urbano não é diferente. Há narrativas muito boas e interessantes e outras mais fraquinhas. Para não tornar essa resenha muito vaga, apresento uma breve análise de cada um dos contos, seguindo sua ordem de apresentação.




Pipoca doce, Amanda Vital

Relato memorialístico, um tanto sucinto e sensível, o que é bom para aqueles que creem na brevidade da narrativa curta. Entretanto, o conto em questão se apresenta breve demais, dando a impressão que autora perdeu o fôlego e não sabia como prosseguir, o que dá ao conto mais cara de poema. Até aprecio cruzamento entre gêneros, mas acredito que aqui precisaríamos de um pouco mais de ousadia para tanto. A invocação às deusas, algo bastante clichê no mundo da poesia, no início da narrativa também não me parece contribuir muito para o relato. O conto perde um grande tema (as memórias de infância da narradora) pelos problemas apontados.


Relicário, Anna Apolinário

Outro relato de memórias, desta vez com uma narradora que usa como gatilho para os devaneios um livro vermelho numa biblioteca. De tonalidade erótica, a linguagem atrapalha um pouco esse clima por ser um tanto tímida, formal, empolada. O conto ganharia mais força se buscasse representar a sordidez das memórias de desejo através da linguagem, o que deixaria a narração menos pudica. Um ponto forte é a tematização do corpo, tão comum na escrita feminina e feminista, o que pode enquadrar a narrativa nas exceções às críticas que fiz no início desta resenha.


Pássaro sem asas, Cyelle Carmem

Aqui temos a história de uma moça que recebe um telefonema e decide pegar a estrada retornando a seu lugar de origem. O relato aqui já é bem estruturado, peca apenas em ter um desfecho bastante previsível. 


Parapeito, Letícia Palmeira

Uso quase incessante de discurso indireto livre não parece ser do agrado da maior parte dos autores, talvez pela sua dificuldade de elaboração ou pelo estranhamento que pode causar a leitores mais incipientes. Entretanto, aqui temos um exemplo do domínio da técnica, bastante frequente nas outras obras da autora – técnica que faz um relato tão simples como o de uma garota que invade o apartamento de um rapaz para se atirar janela abaixo se tornar expressivo, pujante pelos cruzamentos de vozes e questionamentos que engrandecem a tensão e o tom um tanto lúdico do desfecho. 


Requiem aeternam, Lizziane Azevedo

Talvez o melhor conto da coletânea. Narrativa crua, sem excessos, casa perfeitamente com a temática escolhida que também é uma exceção ao que critiquei no início desta resenha. Aqui o viés feminista é bem mais flagrante, já que traz um retrato da violência doméstica, mais especificamente contra a mulher. O desfecho também traz à tona essa perspectiva pragmática e trágica da vida, tornando um conto bastante representante daquilo que podemos chamar de "literatura de denúncia". 


Valete de Copas, Maria Valéria Rezende

Uma narradora que se encanta com a figura de uma carta de baralho. Conto curto e direto, com um leve pezinho no fantástico, o que faz com que o leitor se divirta cruzando a linguagem denotativa e referencial com a alegórica. 


O armário da memória, Mayara Vieira

Outra vez um conto de memórias, mas aqui com uma abordagem mais pragmática. A estrutura clássica também agradará aos que preferem narrativas curtas à Poe e Quiroga. A narração é bastante sucinta e o final não desaponta.


Quimeras de Clarice, Mayara Almeida

Talvez o relato mais fraco da coletânea, estruturado em mini capítulos que deixam a narrativa longa e enfadonha. Espera-se que o leitor se atenha ao longo do conto, mas o desfecho frustra as expectativas por ser extremamente óbvio. 


O elevador, Mirtes Waleska

O mesmo desfecho do conto anterior aparece aqui, o que pode provar como esse tipo de final é um lugar comum. Entretanto, problemas que aparecem em alguns contos comentados não aparecem aqui: somos apresentados a uma narradora que relata seu encontro com uma moça num elevador de seu prédio. A temática mais apegada a questões de gênero também pode agradar a quem se interessa sobre o assunto. A linguagem também se apresenta direta, sucinta e não parece distante ou tímida ao tratar de questões afetivas. 


E agora?, Romarta Ferreira

Aqui temos a história de uma criança narrando as rusgas entre seu pai e seu avô, com linguagem lúdica e direta, que contribui para o bom desfecho. Com relação ao tema deve agradar pela rara escolha de crianças protagonistas na literatura adulta. 


Trocadilhos, Sammely Xavier

Um término de namoro. Apresenta-se até interessante graças à abordagem metalinguística do narrador, mas vai ser perdendo a um desfecho fraco. Também poderia ter um pouco mais de conflito para engrandecer o final.



A conclusão que tiro de Ventre Urbano é que temos aqui um bom catálogo de autoras, com propostas interessantes para o conhecimento dos leitores. Convém salientar o que digo sempre em minhas resenhas: as críticas aqui apresentadas não são um ataque a qualquer autora, tampouco significam que a autora é ruim, apenas denotam que, a meu ver, o texto não foi feliz e que nessa vez a autora errou a mão. A oscilação da coletânea talvez se justifique pela quantidade de autoras estreantes na narrativa curta, mas muitas delas já mostram certa afinidade com o gênero. Também há contos muito bons e que atestam a maturidade das autoras mais experientes e revelam novas promessas que dão seus primeiros passos. Recomendo a leitura a todos os que quiserem conhecer mais sobre boa parte da produção literária paraibana.








01/01/2016

2016: o que vem por aí




Saudações, amigos! Sei que o blog anda meio parado. Tive  muitos problemas que me desmotivaram a tocar as coisas aqui, mas nesse início de ano tentarei aparecer um pouco mais. Para começar, um resumo do que ando fazendo e que pode se concluir esse ano.
Livros novos?
Com certeza! Tem um livro de contos prontinho, faltando pequenos retoques. Trata-se de uma coletânea de contos fantásticos.
Estou escrevendo (e já em fase bem avançada) um novo romance. Parece que depois de Ascensão e queda o gênero me pegou de jeito. Entretanto, o foco não é mais a música, mas sim questões sobre gênero e sexualidade. Para que gostam de explicações mais pedantes, seria "uma problematização do espectro de gênero a partir de um contexto distópico" (risos) não sei se fica pronto esse ano, mas caminha bem.
No campo da crítica literária, depois do lançamento de Diacronia: ensaios sobre ficção científica no fim do ano passado. Eu e João Matias de Oliveira devemos elaborar uma nova coletânea, agora voltada a estudos sobre o terror. 
Há também um novo projeto para contos, mas ainda está muito raso, assim que conseguir consistência, comento algo sobre ele. 
Aguardem aí que esse ano temos muita coisa boa.

20/08/2014

O silêncio de Lucy





Não houve mais nenhuma comoção quando souberam do suicídio do pai. Não por não gostarem dele, e sim por terem já derramado lágrimas demais nos outros desastres. Lucy, como sempre, estava no quarto, com vários papéis a sua volta e uma caixa com um lápis ou outro caído, mais vários gizes espelhados por toda parte. Não vem pra cá agora, menina. Espera que eu venho te chamar, tá? Nem parecia que eu tinha falado com ela; Lucy permanecia absorta no tapete do quarto. A polícia chegou e novamente me fez uma porção de perguntas. Sou a empregada da família há anos, estou chocada com tanta tragédia. Me chamo Otávia. Não, não suspeito de nenhum motivo para isso tudo, senhor. Claro que estarei à disposição. Recolheram o corpo de seu pai, cercaram o banheiro pra examinar tudo, o chão, a pia, a corda pendurada que ele usou. Continuava perplexa, tentando entender.
Tudo bem que não foi um atrás do outro, mas é muito estranho assim mesmo. Dona Cecília ficou cega misteriosamente, uma infecção no hospital, somada aos problemas do parto; de certa forma esses problemas justificam a depressão profunda daquela época em que nasceu a pobre Lucy, e também o fato de ter se atirado da janela. Não estava presente na hora. Só vim saber do ocorrido quando cheguei da faculdade, tarde da noite. As pessoas nervosas na frente do prédio, sem saber o que fazer, o restante da família chorava e não sabia fazê-lo e andar ao mesmo tempo, atrapalhando o socorro.  Me pediram que cuidasse da pobre Lucy. Corri pra o quarto dela, encontrei-a dormindo como um anjo. Vigiei-a até eu mesma cair no sono horas mais tarde.
Eu não estudava nessa área, mas li bastante sobre autismo e coisas que se parecessem. Isso porque a família toda achava que a pobre Lucy tinha algo de muito estranho. Todos achavam que aquele “crescimento para dentro” de que falavam os médicos tinha a ver com a morte precoce de D. Cecília. Os irmãos da criança sofreram, mas eram grandinhos na época; já a Lucy, mesmo bebê, assistiu muito daquela tragédia. Viu reações de todos, ficou no seu cantinho parecendo ter decidido crescer nele mesmo. Das atividades que os médicos passaram, ela parece ter gostado mesmo de desenhar e rabiscar com gizes e lápis pra lá e pra cá. Mesmo quando a irmã mais velha cortou os pulsos no mesmo banheiro em que seu pai morreria, ela não parecia se interessar. Os rabiscos, inclusive nas paredes do quarto, já eram suficientes pra seu bem-estar. Era sem dúvida seu maior prazer. A irmã morreu sem motivo aparente; era querida por Deus e o mundo, mas de uma hora pra outra aconteceu. Acharam no quarto alguns textos, um diário. Na verdade, parecia mais um caderno de mensagens sem muita conexão. “Preciso fugir enquanto há tempo”, esta frase se repetia às vezes. A polícia arquivou tudo quando cansou de procurar a razão daquele fatídico acontecimento. Fiquei com a pobre Lucy no dia do enterro da irmã, pois ela era muito nova pra ir; acabou indo já no enterro do avô, que tinha disparado na boca anos depois. Nada em Lucy esboçava uma reação pior do que aquela de silêncio. Ela continuava cercada de amor e carinho; a essa altura eu já tinha terminado meu curso e podia passar mais tempo cuidando dela, como tinha recomendado o pai.
O avô de Lucy vivia também na casa com sua esposa, D. Celeste. Vivia se queixando de dores pelo corpo, reumatismo, essas coisas. Mas mesmo assim sempre cuidava dos netos, e é certo que tinha um carinho todo especial pela mais novinha, até pelos seus problemas. Ela é débil mental, mas não tem culpa, eu como avô vou sempre cuidar dela. Ela permanecia rabiscando, gastando caixas e mais caixas de lápis. Raramente saía do quarto, os médicos falavam que não sabiam por que o tratamento não surtia efeito. Eu também não entendia, e me sentia cada vez mais intrigada com aquelas mortes sem pé nem cabeça.
Pra falar a verdade, até um pouco de medo me passava às vezes. Era muito estranho tudo aquilo. Às vezes me sentia vulnerável naquele mau agouro da casa inteira, eu não era como Lucy, que conseguia viver avessa a tudo e todos, e eu era estudada. Eu sabia que no fundo isso não passava de crendice. Também até seria fácil procurar outro emprego, um que me tomasse menos tempo, mas eu já era muito apegada àquela família, apesar dos pesares. Nem presenciei a morte do avô de Lucy, pois tinha sido na minha folga, mas mesmo assim sonhei com aquela descrição perturbadora que fizeram. Tudo bem que quando o irmão da pobre Lucy se jogou na frente do trem na estação tudo foi ainda mais chocante, até porque ele não estava só naquele momento. Lucy e eu tínhamos saído com ele pra passear – a pobrezinha nunca sai, decidimos levá-la a algum parque. Ela viu tudo, toda a seqüência: ele se jogar, o trem passar, o trem sumir no horizonte, olhava estranho pra o trem, nem sequer piscava. Viu os transeuntes se chocando com o ocorrido, viu quando eu fiquei estatelada, mas não esboçou uma mínima reação. Horas mais tarde, no caminho de volta pra casa, eu tomava o milésimo copo d’água. Lucy, pobrezinha, olhava da janela do trem pra a paisagem verdejante.
— É melhor fugir.
Até hoje tenho minhas dúvidas se foi delírio meu ou se realmente a pobre Lucy tinha reagido ao mundo exterior e balbuciado algumas palavras. O pior é que eu deveria ficar feliz, mas a tensão toda diante de tanta morte me deixou sem raciocínio. Óbvio que aquelas palavras que pensei ouvir também me deixaram desnorteada. Como eu estava na hora, a polícia chegou e me fez uma porção de perguntas. Sou a empregada da família há anos, estou chocada com tanta tragédia. Me chamo Otávia. Não, não suspeito de nenhum motivo para isso tudo, senhor. Claro que estarei à disposição. A pobre Lucy se recolheu aos seus desenhos e a seus aposentos, não disse nenhuma palavra; continuei sem compreender aquilo tudo. Quando ia ver a minha família na folga eu não comentava muita coisa, guardava pra mim. Minha mãe queria que eu largasse aquele emprego. Com o passar dos anos a condição tinha melhorado e procurar algo novo e melhor não seria tão difícil. Mesmo assim eu analisava o caso sem decidir nada. Muitas vezes me perguntei se era isso mesmo que deveria ser feito. Abandonar aquela família que sempre me tratou como família, uma criança que vejo praticamente como filha, mesmo os outros vendo como débil mental por não respeitarem seu universo avesso.
Lucy esteve no enterro do irmão, que tinha só dezesseis anos quando morreu. A família toda se destruía sem motivo aparente. Desse jeito a pobrezinha nunca vai ficar boa; o pai sem saber mais o que fazer. Pensou em levá-la pra outro canto, mas acabou decidindo o melhor: ele tinha que permanecer ao seu lado e de todos que a amavam. Muita terapia pra ela, que passou a interagir mais uma vez com o mundo, agora através de seus desenhos. Os médicos se sentiam desolados ao ver com que perfeição, considerando que eram rabiscos de criança, ela conseguia expor as mortes que lhe cercavam. Desenhos bastante simples, mas que mostravam com crueza o que seus olhos liam daquilo tudo. Bem que sua irmã costumava dizer que ela era bastante perspicaz, que ela não estava alheia ao mundo. Começo a pensar o mesmo, mas ainda tenho medo. No apagar das luzes então nem se fala.  Dormia no quarto de empregado, mas passei a acordar no meio da noite, cismada. Juro que algumas vezes ouvi vir do outro lado da parede o barulho de giz raspando, como se a garotinha estivesse ainda acordada, desenhando na parede. Uma vez, pouco antes de sua avó ser encontrada envenenada na cama, cheguei a sair do meu quarto pra conferir se Lucy realmente dormia. Ao entrar no quarto não havia movimento nem de mosquitos. Ela dormia feito anjo, como sempre fez. Graças a Deus essa minha filha nunca me deu trabalho para dormir, dizia sempre o orgulhoso pai. Eu lia e relia alguns papéis sem ter uma resposta que me servisse; se eu não fosse tão consciente das coisas diria que tinha alguma maldição em cima dessa família, e que alguma coisa desse universo fechado da pobre Lucy a protegia. Deixava isso pra lá; quando estava já superando tudo, outro suicídio atrapalha tudo. Assim se foi D. Celeste, num dia de céu azul encontrada morta no quarto. A perícia detectou veneno em seu corpo. Fui mais corajosa, levei o que sobrou da família, Lucy e seu pai pra mais um enterro. A garotinha já estava com nove anos, parecia estar ainda naquele estado de sempre. Nada a surpreendia, olhava mais os carros passando ao longe do que a cerimônia de sepultamento.
O pai estava se derramando em desgosto; não sabia o que fazer. Eu muito menos, cada vez que via que a garotinha tinha feito algum desenho estranho me assustava. Depois criava forças e seguia firme, afinal eu a amava como se fosse filha. E como se fosse filha continuei a tratá-la, mesmo quando o pai dela acabou, depois de anos, se casando novamente. A moça era jovem, bonita, vistosa, e parecia gostar também da menina. Pelo menos da parte da moça, elas se davam bem. A pobre Lucy ia ao médico, mas não parecia ter maior reação do que as que tinha tido de maneira avulsa estes anos todos.
O pior foi que a amizade das duas não vingou. A nova esposa achava que bastaria algum tempo de conversa e atenção pra chamar a atenção da criança. Isso, como já era de se esperar, não aconteceu e acabou gerando um grande conflito. Como o pai não abria mão da filha, deu até pra nesse caso entender porque foi que a nova esposa acabara se matando. Amava demais o novo marido, mas estava na cara que não agüentava dividi-la com aquela deficiente. O desgosto só aumentou então; por este motivo ele sucumbiu à pressão e acabou enfiando uma corda no pescoço – pelo menos é o que minha razão consegue concluir desse fim, mesmo sem entender como essas coisas começaram a acontecer.
Fiquei alguns dias cuidando da pobre Lucy, que só tinha a mim agora e com urgência teria seu futuro decidido pelo Ministério Público. Em alguns dias eu estaria desempregada, vendo alguém que tanto amei sem compreender ir pra um abrigo ou pra casa de algum parente distante. Pensei comigo sobre tudo, não me fechava numa só resposta convincente. Se tem maldição, não atinge só quem é da família, pois a nova esposa do pai da criança não era. Ou será que morreu justamente por entrar pra esta família? E quanto a mim? Parei de pensar besteiras, só que não demorou muito pra meu mundo rachar de vez: Lucy desenhava no quarto como sempre nesse dia. Era, inclusive, seu aniversário de treze anos.
“Sua vez?”, essa era a pergunta escrita num desenho que tinha feito. Era um desenho de extremo mau gosto, refletia a agonia daqueles que morreram a sua volta. Em fração de segundos compreendi a pergunta, sem sequer ficar feliz por ver que a pobre Lucy sabia escrever. Corri do quarto imediatamente, ela, com aquele jeito estranho de sempre, me seguiu lentamente. Corri pra o meu quarto, arrumei minhas malas. Já está bom, já vi sete mortes. Basta. Ela batia na porta. No que a abri ela me abraçou, meio sem expressão. Ainda afoita, derrubei a mocinha no chão; os gizes que carregava caíram e rolaram todos. Pensei ao olhar pra trás tê-la visto chorando enquanto me seguia.
Essa cena me perseguiu sempre aqui pelos corredores do sanatório. Os médicos dizem que estou reagindo bem ao tratamento, mas me amedronto, ainda mais ao ver que deixaram que ela me visitasse. Carregando um monte de papéis desenhados pra me mostrar; corri por todo o corredor do oitavo andar, ignorei-a. Me tranquei numa sala branca por lá, ouvindo-a bater na porta. Bateu várias vezes, mais e mais forte, sem dizer uma palavra, como sempre. A janela. A janela. A janela. Nunca me pareceu tão convidativa...



In: SHIRUKAYA, Wander. Balelas. RJ: Mutuus Editora, 2011.

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