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31/07/2015

A importância das epígrafes



O processo de produção de um texto em prosa requer atenção a diversos recursos que utilizamos para a construção de uma obra perfeita - ao menos aos nossos olhos. Dentre esses recursos disponíveis em nossa paleta de cores literárias, lá estão as epígrafes. Esses texto pretende divagar um pouco sobre a função delas na narrativa.
Seria possível ao escritor conceber a epígrafe como uma espécie de termo acessório, visto que ela não chega a ser algo de presença obrigatória (realmente, em arte é muito difícil acreditar que algo tenha a obrigação de estar presente). Entretanto, o bom escritor pode fazer uso de uma epígrafe de forma que a desloque da condição de acessório para a de essencial à diegese. Conta-se que boa parte dos escritores ainda veem a epígrafe como um adorno, "cereja de bolo" ou algo do tipo, o que enfatizaria a nossa visão dela como termo acessório. Entretanto, é possível considerar tal recurso como indissociável da narrativa vigente, se levarmos em consideração os estudos de Wayne C. Booth, que dizem, não bem com essas palavras, que epígrafes, notas de rodapé (ao menos as do próprio autor ou mesmo de um personagem da trama), títulos, elementos de composição secundária fazem parte de uma "ótica" criada especificamente para aquela obra. Se levarmos em consideração esse ponto de vista, fica difícil não prestar atenção à importância de uma epígrafe, bem como de sua relação com os acontecimentos narrados.  
Sendo assim, a epígrafe ganha função que vai muito além de "capturar a atmosfera" da obra, podendo até servir de prolepse (antecipando eventos importantes que ainda serão apresentados ao leitor) ou ironizar um contexto ali exibido.
Alguém que leve em consideração esse tipo de interpretação textual tenderá a sempre buscar compreender a função estética de uma epígrafe específica. O autor, por sua vez, se sentirá forçado a pensar essa mesma função, o que abre um novo plano de diálogo entre autor, obra e leitor. Penso, por exemplo, na epígrafe de Deixe-me entrar, de John Lindqvist:

I never wanted to kill
I am not naturally evil.
such things I do
Just to make myself
more attractive to you.
have I failed?
Morrissey, Last of the famous international playboys.

Percebamos a relação intertextual entre a obra de Lindqvist e a epígrafe, retirada de uma canção do Morrissey. A ideia de matar para tornar-se mais atraente a quem amamos ganha dimensões diferentes ao considerarmos que Deixe-me entrar conta a história de um vampiro (as adaptações para o cinema são também bastante conhecidas). Não quero encher esse texto de spoilers, mas convido o leitor a examinar com mais cuidado a força que tem a epígrafe nessa narrativa. 
No mais, ao leitor, deixo aqui a sugestão de prestar mais atenção ao recurso estético de que falamos. Talvez, fosse divertido selecionar suas epígrafes preferidas. Já ao escritor, sugiro a observação minuciosa de seu texto, perguntando-se até onde é necessária uma epígrafe e, caso ela exista, que relações semânticas apresentamos aos leitores a partir dela.

10/02/2015

Glorificando o híbrido - Parte IV (final)

Atenção! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Chegando ao fim de nossa série, depois passarmos pelo cinema (Matrix) e anime (Kill la kill), é chegada a hora de ver um bom exemplo do híbrido na literatura. Para tanto, vamos ver o que acontece em Rei Rato, do mestre da weird fiction China Miéville (foto da direita). 
Numa Londres cerda de criaturas abomináveis que se esgueiram quase invisíveis pelos becos e esgotos, uma dessas criaturas governas todos os imundos ratos da cidade. O conflito começa quando um ser misterioso resolve destruir o Rei Rato: o flautista de Hamelin. Ele tem o poder de, através de sua música, controlar toda a população e fazê-la atender suas ordens. Para cada tipo de criatura, o flautista deveria tocar uma música diferente.
Vendo que não seria páreo para o flautista, Rei Rato decide ir atrás de seu "herdeiro", Saul Gramond. Saul é o híbrido, filho de uma aventura de seu pai com uma humana, que agora terá de despertar seu lado sombrio. Assim, vamos acompanhando toda a adaptação de Saul ao mundo sombrio dos esgotos, tudo acompanhado da batida veloz do jungle e do drum'n'bass. Durante esse aprendizado, o flautista também começa a caçá-lo para que toda a raça dos ratos seja destruída. 

Confronto final

No duelo final entre o flautista e Saul, vemos o quão poderoso é o antagonista, quando, com a música de seu instrumento, faz com que todos os humanos e ratos estejam sob seu domínio, entretanto, Saul consegue escapar do então iminente massacre dentro de uma casa de show, pois ele não é rato, nem humano. Sua hibridez faz com que o flautista não consiga dominá-lo e, assim, saia derrotado. Complementando o encerramento, vemos a clara mensagem política de celebração da miscigenação e da organização de uma sociedade que não se submeta aos caprichos de seus líderes. É possível ver o futuro como um ambiente de preservação da identidade e, concomitantemente, da promoção da diversidade. 

Concluindo

O que podemos ver a partir das três obras aqui apresentadas é que nas últimas décadas, a produção artística a nosso redor parece também ter se preocupado em promover a diversidade étnica e cultural. Escrever é sempre um ato também político e, como tal, serve de material para reflexão sobre nossos rumos em tempos de crises econômicas e políticas separatistas e/ ou persecutórias. Vale a pena ver o que cada um dos híbridos tem a dizer, perceber até onde somos como eles e ver o que podemos aprender com eles. Fica o convite. 

Perdeu as outras partes? Veja aqui as partes I , parte II e parte III da discussão!
 

09/12/2014

Glorificando o híbrido (parte III)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 




Moda, fascismo e muito nonsense em Kill la Kill!

Continuando nosso papo sobre o híbrido nas artes, apresento aos que não são muito fãs de cultura japonesa um dos animes mais badalados dos últimos tempos e importante exemplo para nossa discussão.
Kill la Kill nos apresenta um cenário distópico em que a militarização das escolas é levada a níveis hiperbólicos. Por sinal, hiperbólico porderia ser a melhor palavra para definir o anime, já que tudo é extremamente exagerado: fan service, derramamento de sangue, humor e nonsense. A história ressignifca um monte de clichês, partindo do clássico jovem-que-quer-vingar-a-morte-do-pai. Essa jovem é Matoi Ryuko, que, fazendo uso de uma tesoura-espada, se rebela contra a chefa de sua escola, Kiryuin Satsuki. O negócio vai ficando cada vez mais louco quando descobrimos nossa protagonista favelada na verdade não é humana: é uma criatura híbrida. 
Ryuko usa um uniforme com vida própria, Senketsu, com quem conversa e tem uma relação de profunda amizade. O uniforme sobrevive se nutrindo de seu sangue e, em troca, Ryuko usa seus poderes, que se ampliam ao longo da série. O que não se contava é com a reviravolta digna de novela mexicana: Satsuki também tem interesse em Ryuko para que juntas, possam derrotar Kiryuin Ragyo, verdadeira mãe de Ryuko que está promovendo a destruição do mundo por... roupas!
Segundo ficamos sabendo, criaturas alienígenas minúsculas, chamadas de Fibras da Vida, viajam pelo espaço e se instalam nos planetas para de forma parasitária, vão fortalecendo seus hospedeiros até que estes estejam prontos para ter suas energias levadas, dando origem a novas Fibras da Vida. Isso mesmo, roupas alienígenas que invadem a terra para transformar a Terra numa imensa bola de lã. Como dito, tudo se torna ainda mais absurdo ao Ryuko saber que não é filha de seu pai, mais é uma criatura híbrida, filha de Ragyo com as Fibras parasitas, ou seja, meio humana, meio roupa. 
Por fim, a humanidade vence, mas com a ajuda de Ryuko, que resolve lutar para não ser dominada pelas roupas, algo impossível para qualquer raça inferior como a humana. O resultado é que a união perfeita de Ryuko com seu uniforme que, por estar ligado ao sangue da protagonista, é também híbrido, faz com que os arifícios que as Fibras da vida usam para dominar os demais sejam ineficazes, causando o completo banimento dos aliens da face da Terra, enfim todos podem descansar em paz, sem se preocupar em ser dominados pelo que vestem, bem como vestir o que bem entenderem. 
Diante de uma história tão maluca, à primeria vista, não se percebe muita coisa, pois os exageros propositais da obra fazem com que muita coisa possa passar despercebida. Ou seja, Kill la kill pode paraecer um anime de humor com aliens invadindo a terra, mulheres seminuas em uniformes especiais (espécie de tributo à Sailor Moon, diga-se de passagem) e muito, mas muito sangue. Porém, como se espera de toda boa obra, muitas leituras se abrem sutilmente, como por exemplo o poder feminista da obra, mesmo fazendo uso de artifícios comumente machistas, discussão sobre a  exploração da sexualidade feminina, sobre a militarização das escolas conservadoras e, especialmente para o nosso caso, a representação de um ser único, que se difere dos demais por ter características de dois grupos até então distintos: o híbrido. Sem esse hibridismo, como vimos, Ryuko não conseguiria destruir as roupas alieníginas. Temos então outro grande exemplo de representação de "miscigenação" libertadora. 



No próximo episódio: depois de homem-software e mulher-roupa, que tal vermos um homem-rato? Aguardem!

 Continua...

08/11/2014

Glorificando o híbrido (Parte II)

Atençao! Atenção! A discussão a seguir possui altos níveis de spoiler! Se você ainda não viu/ leu as obras aqui discutidas, cuidado. 


Tudo bem que nessa parte da nossa dicussão nem seria tão necessário avisar sobre spoiler, já que pode se dizer que todo mundo viu a trilogia Matrix. Sendo assim, pulamos uma introdução mais detalhada e vamos olhar mais de perto os eventos finais de Matrix Revolutions, último filme da série. 
Matrix deixou uma legião de fãs, mas também deixou dúvidas e lacunas com sua estética mais preocupada em sugerir do que em afirmar algo. O resultado é que até hoje temos muitas interpretações sobre o desfecho. É quase unânime a opinião de que os acontecimentos do final são bastante confusos, o que me fez lembrar também do desfecho de Evangelion e sua viagem cheia de parabéns. Proposital ou não, a confusão existe e acabou por enriquecer a obra. 
Destre os principais pontos de confusão, podemos citar o fato de a existência de Neo não ser questionada. Na verdade, o tempo todo os personagens nos sugerem que sabem bem quem ou o que Neo é, mas nós temos essa resposta com convicção, ainda mais quando lembramos de que Neo conseguira usar seus poderes fora da Matrix. Caso semelhante acontece com o Agente Smith. A pergunta que fica é: Neo é um programa? Um humano? Tais questionamentos acabaram por fazer com que alguns espectadores acreditassem que a realidade onde Neo vive também estivesse sendo uma simulação, ou seja, a chamada teoria da Matrix dentro da Matrix

O que propomos aqui é que algumas respostas a estes questionamentos podem ser encontradas ao observar os procedimentos narrativos do filme. É possível que em algumas obras fantásticas ou com elementos próximos dele, possuam algo que destoa da linearidade esperada, algo que "não bate" com o que se apresenta, algo que fere e transgride as leis do que o leitor/ espectador define como real. Ele não obedece à realidade, mas no entanto continua lá e, até certo ponto, permanece imcompreensível. Se tomarmos como base essa transgressão da realidade aqui comentada e relacionando-a aos eventos de Matrix Revolutions, é possível ter uma nova interpretação do que é Neo. Ele é o elemento fantástico, ele não é um programa, mas também não é um humano; é, na verdade, uma fusão, um ponto de convergência ou transição entre eles: é o híbrido. De acorodo com o que vemos na série, o híbrido vence, ele é o escolhido, está acima dos demais e, sendo assim, o único a romper com o sistema social que vemos. A revolução vem da união. 
Curioso é que Smith também levanta as mesmas questões, mas ele não quer salvar ninguém: quer corromper, destruir. À primeira vista isso derrubaria a nossa tese, mas por outro lado a enfatiza,  já que ressalta que o purismo de um humano ou programa se mostra insuficiente perto de alguém com as caracteríscas dos dois. Percebamos o quanto de novos caminhos abrimos olhando sobre esse ponto de vista. 
No próximo capítulo, veremos que Matrix não está tão distante assim de Kill la Kill. Até breve!
Segue uma musiquinha aí pra animar.


Continua...

15/10/2014

Glorificando o híbrido (parte I)


Saudações, meus amigos! Aqui vou eu aproveitar que estou com menos preguiça de pensar e trazer novos debates. Sem mais delongas, vamos nessa!
Em toda a história da humanidade temos muitos embates ideológicos e, em sua maior parte, todos apresentados de forma binária, maniqueísta: bem contra mal, Platão contra Aristóteles, capitalistmo contra socialismo e assim por diante. Porém, a situação de meio-termo dentro desses embates sempre causa muita confusão e acaba desfazendo, diluindo os limites entre os dois elementos até então vistos como antagônicos, excludentes. Assim, surge uma espécie de "terceira via" que incomoda muito aqueles que refletem sobre outro embate dicotômico, que é o alvo de nossa discussão aqui: purismo versus hibridismo. 

A era da pureza

Entendamos aqui como purismo a tendência que muitas pessoas tem de de se posicionarem contra a mistura, o que faz com que sua organização de pensamento seja binária. Para essas pessoas, seria inadmissível que um elemento A pudesse incorporar características de um elemento B, ou seja, ou você é homem, por exemplo, ou mulher; ou você é rico ou pobre, etc. Mesmo que casos que desafiem essa visão binária do mundo ocorram à perder de vista, tal purismo tem sido, talvez até hoje, na maior parte das nações, o pensamento majoritário (nem sempre da maioria númerica, é bom salientar). 


Nem uma coisa, nem outra

Parece discurso da Marina Silva, mas com a natural interação social entre os povos, as ideias que eram tidas como absolutas para uns têm tido seus limites atenuados ou, em muitos casos, completamente destruídos. As concepções e convicções de ambos os lados são permanentemente transgredidas, criando um elemento destoante: eis o híbrido, um elemento que ganha cada vez mais força, tanto que, se nos inspirarmos pelos estudos filosóficos das últimas décadas, torna-se cada vez mais difícil conceber uma única realidade, bem como conceber nossa realidade como imutável e absoluta.
Mas por que cargas d'água falamos disso aqui, num mero blog literário? A resposta é simples: o hibridismo tem sido um dos pontos principais a se discutir também nas artes, especialmente dos anos 80 para cá. Mais ainda: há um discurso presente em boa parte dessas obras em favor desse hibridismo.

Como assim, discurso em favor do híbrido? Para explicar melhor, tomamos como exemplos três obras distintas, como já é costume aqui no blog, de campos da arte igualmente distintos. Primeiramente, veremos o caso na trilogia Matrix (em especial, o terceiro filme, Matrix Revolutions [2003]). Em seguida, nuances desse hibridismo no anime Kill la Kill (2013) e, por fim, no campo da literatura, observando Rei Rato, de China Miéville (2011). Será que dá para relacionar obras tão diferentes de acordo com o tema aqui de nosso debate? É o que veremos logo mais.

Continua...

04/06/2013

Pé (e arte) no chão (parte II)

A arte, o bem e o mal

Seguindo com a nossa discussão, voltamos a falar sobre o maniqueismo/ binarismo que tanta polêmica cria quando observamos a recepção de uma obra. Tomamos como ponto de partida, para quem não leu, a celeuma envolvendo o fato de Valesca Popozuda ter virado tema de dissertação de mestrado. Como propusemos, toda a discussão em torno de assuntos como este vêm da nossa incapacidade de organizar nosso pensamento de forma que não seja maniqueista. Sendo assim, acaba se tornando natural que "sacralizemos" tanto a arte como a cultura em si, posto que a ideia de algo "sagrado" nos traz conotação positiva e contributiva para nosso engrandecimento como seres humanos. E é exatamente aí que mora o problema.
Há milhares de anos possuimos dentro de nós tal tendência. Platão buscava o Belo (não aquele cantor horroroso), o elemento que fosse perfeito, único, e muito dessa visão platônica influencia até hoje nossa concepção de arte. Trocando em miúdos, arte tem a ver com perfeição, algo tão bem feito que só pode ter tido uma mãozinha divina durante sua concepção. O resultado disso tudo é que tendemos a considerar como arte tudo aquilo que, de algum modo, nos vincula a um engrandecimento espiritual, independente da religião cultuada, como se arte fosse uma espécie de stairway to heaven, um caminho para atingirmos Deus, o Nirvana, etc. 
Pois bem, esta tendência não parece de toda má, há milhares de exemplos que fazem questão de ressaltar essa relação entre arte e algo divino. Repare as contruções dos templos católicos ao longo da história, os arquitetura gótica; tambérm vale lembrar que, em muitas culturas, os registros literários tidos como "primeiros" ou "mais importantes", eram compostos por pessoas ligadas ao clero, como  os sermões comuns do Puritanismo norte-americano ou os de Padre Antônio Vieira aqui no Brasil. Arte e religião andam de mãos dadas, graças a influência expressiva da segunda em nossas vidas, o que acaba causando certa confusão e nos impulsionando a ver toda expressão artística da mesma forma. O que não atender a esta nossa concepção de arte, não será obviamente arte. Simples assim. E então, o que fica além desta visão unilateral apresentada? Como ficaria a obra de Soasig Chamaillard (foto)? É o que veremos no próximo capítulo de nosso bate-papo. Até lá!


Confira também a parte I aqui.


10/05/2013

Dois catarros







Tomara que não ponham a culpa em mim. A culpa sempre sobra pro mais fraco. Nunca que vão dizer que sou inocente. Vai vir um monte de polícia fazer pergunta, que que você fez com o cara? O que aconteceu lá no quarto?  Sabia que você pode ser presa? Sim, eu sabia, e por esse motivo abri logo o bico, disse a mesma coisa que disse pras meninas. Elas tão aí pra não me deixar mentir. 
O bar tava bem cheio. Hoje, além de sábado, é dia cinco. Os homens vêm com tudo gastar o salário com a gente. Cadê? Cadê? Não tem mulher bonita aqui nessa porra, não? As meninas logo se mostram, tá falando com quem? Esfregam logo a cara deles nos peitos, depois que tão todos doidos, eles querem meter a mão em tudo quanto é lugar. Aí só mete se for lá pro quarto, e aí, vamos? Os que não têm muita grana logo se afastam, assim fazemos uma espécie de triagem pra ver quem é quem. Hoje não precisei fazer isso, uma turma de playboys chegou logo esfregando dinheiro na cara das meninas, pedindo o melhor uísque do bar e tudo o que tinham direito. Quero ver quem é a moça que vai rebolar pra mim! Deram uma grana pra Britney pra ela tirar a roupa. Eu tava na minha, tomando uma cerveja. Enquanto rolava o strip, os caras tavam tirando onda com um deles, parecia ser o mais mole, desanimado.
O coitado fumava um cigarro caro que nunca vi na vida; de vez em quando tossia forte, dava pra ouvir o catarro entalando. Dinheiro fácil, meto de qualquer jeito e depois tomo um banho, do jeito que ele tá acho que nem vai me xingar. Pensando assim me aproximei, sentei logo no colo. Oi, gato. Meu nome é Bárbara, mas todo mundo me chama de Babi, e você?
— Augusto. – a resposta veio acompanhada a dois beijinhos de cumprimento.
 Espero que vocês acreditem em mim, o esquisito era ele! Não fiz nada demais.
Me ofereceu uísque, não, obrigada. Cerveja? Cerveja eu aceitei, não bebo (muito) em serviço. Tomei um gole e puxei a mão dele pra minha cintura. Você namora, Augusto? Sou solteiro. Eu ri do tom de piada da resposta, os caras tirando onda, as meninas todas felizes, Britney dançando. Quando ia prosseguir com a conversa ele me fala no ouvido:
— Faz tudo o que eu quiser? Pago bem.
Não esperou nem que eu respondesse, enfiou um nota de cinquenta no meu decote, essa é só pela conversa. Que cara estranho... Dinheiro fácil... Que que você gosta, que que você quer que eu faça? Tudo não, que atrás eu não gosto. Insistiu dizendo que pagava bem, deu outra tossida, tá doente, rapaz? Gripe, nada demais. Acreditei nele e ainda mais quando ele me mostrou muito dinheiro na carteira. Era ser muito burra se eu num metesse com aquele cara.
Mal tranquei o quarto e ele me agarrou por trás, beijando meu pescoço. Calma aí, aqui não é lugar pra romance, a gente tá aqui pra meter! Ele não quis me ouvir, encheu minha boca com um beijo. Nunca que eu beijo cliente, mas abri exceção, dinheiro fácil. Ele me abraçava com força, mal me deixava tirar a roupa, falava umas coisas estranhas. Me beija, minha ninfa! Deixa de bobagem e deita aí, peguei a camisinha e puxei suas calças.
Parei de chupar quando ouvi um trovão. Dou uma de durona, mas morro de medo de trovão. Ele tossindo outra vez, se roçando em mim, me puxou pra cima dele, a tosse forte. Dinheiro não tão fácil, ninguém ainda hoje tinha dado tanto trabalho, mas não podia voltar atrás. Babi, deixa...
Não, nunca que deixei nenhum cliente gozar na boca! Que cara doido, ainda beijando minha nuca, pago bem, você sabe que não estou mentindo. Pior que eu sabia, mas não queria não senhor, dinheiro ingrato! Meu Deus do céu, que companheira inseparável é a ingratidão! Por que ele queria aquilo? Pra se mostrar pros amigos, dizer que era o fodão? Eu não podia fazer aquilo, não queria... Olhava pro olho dele e via ele todo aceso, olhava cada parte do meu corpo, desejava, não é pra me gabar, mas sou uma moça bem cuidada, não tive filho feito algumas das meninas, todas barangas agora. Eu olhava ele, ele respirava forte, dava pra ouvir o catarro correndo na garganta dele, não, não era gripe, nunca que vi gripe desse tipo. Ficou de joelhos na cama, me agarrou pelo cabelo, vem cá, vem!
Por Deus, vocês têm de acreditar que eu não fiz nada demais! Fiz apenas o que ele pediu, depois ele caiu na cama com uma cara feliz da vida, eu ainda entalada. O cara feliz da vida, olhando pro teto, pro céu, sei lá, agradecendo aos deuses, obrigado, minha ninfa, minha hetaíra! Que delícia! Passou um tempo ali, descansando, eu também deitei olhando pro que eu tinha feito, dinheiro maldito! Nunca que tinha feito aquilo! Eu estava feliz na hora, só pensei em chorar um pouco depois, o gosto esquisito na boca, mas chorei mesmo quando ele tossiu. Tossiu uma, duas, dez vezes, não parou de tossir, Augusto, o que você tem, o catarro engasgando ele, ajuda! Alguém ajuda! O homem tá passando mal! Ninguém ouvia por causa do barulho do bar, som alto, homem gritando pra lá e pra cá, mal me enrolei numa toalha, abri a porta e espiei, chamando uma das meninas, elas tão aí pra não me deixar mentir! Babi, mulher, que foi isso!? Eu não sei, eu não sei, a gente tava junto e depois ele passou mal, eu juro! Seu Dionísio, dono do bar, veio e me xingou pra caralho, sua puta! Você quer me ferrar, é? Eu já chorando, os amigos do cara me xingando, carregando o amigo ainda tossindo, passando mal, o catarro travando nos pedidos de socorro dele... Sua puta, o que você fez? Sabia que você pode ser presa? Sabia? Hein? Mas eu não fiz nada! A gente tava só namorando, normal, tudo normal. Sentei numa mesa do bar, ainda de toalha, todo mundo olhando, a música parou. Eu lembrando da cama, do Augusto, pago bem, o choro, o gosto ruim na minha boca, a garganta travando, entalada,  tomara que não ponham a culpa em mim, tomara.
  


Conto adaptado do poema "Depois da orgia", de Augusto dos Anjos, publicado no Jornal Contraponto (PB), em série comemorativa do centenário de Eu, do autor já referido. 

01/05/2013

Pé (e arte) no chão (parte I)



Saudações a todos os leitores, o Blog do Shirukaya está de volta à ativa! O tempo ficou curto e acabou por criar um limbo de alguns meses, mas finalmente eis aqui mais diversão e debate. Volto percebendo boas oportunidades para discutirmos e refletirmos sobre literatura e artes em geral. Um dos assuntos interessantes para debate é o que originou essa nova série de posts. Pé (e arte) no chão pretende refletir sobre todos os elementos de composição de nosso gosto, ao menos, no que tange à arte. Sem mais delongas, vamos nessa!

Tem se destacado na mídia a notícia de que uma das maiores musas do funk carioca, Valesca Popozuda (foto), virara objeto de estudo por parte de uma mestranda  da UFF. A polêmica começou a partir das manifestações de outras pessoas nas redes sociais e de formadores de opinião. Uma manifestação que ficou bastante popular foi a da âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade. Vale a pena ver o vídeo para enriquecermos o debate. 

De um lado, a ala conservadora da sociedade aplaudia de pé tal posicionamento, afina, para eles, é de uma pouca vergonha inefável que coisa tão abominável, como Valesca Popozuda,  possa ter o status de corpus de um trabalho científico - fato que só serve para provar o quanto o PT emburrece nosso alunado. Em contrapartida, a outra ala rechaçou com todas as suas forças o comentário da jornalista, posto que, segundo eles, gosto não se discute e é por nos metermos nas predileções alheias que o mundo está assim, todos impedidos de ir e vir e ameaçados por aqueles ditos defensores da moral e dos bons costumes. Percebamos que, a maior parte do tempo, as opiniões de ambos os grupos são bastante extremistas, muitas vezes com propósito mais partidário do que qualquer outra coisa que os possa engrandecer. Podemos pegar tal conflito como ponto de partida, já afirmando: apesar dos avanços que temos, independente de nossas preferências políticas, morais, religiosas, etc, ainda sofremos por não conseguirmos nos desvencilhar de uma organização binária do nosso pensamento, ou seja, ainda pensamos, em pleno terceiro milênio, que "quem não está comigo está contra mim". Esse é um dos males que ainda não conseguimos destruir e, por isso, ainda temos manifestações de preconceito que poderiam ser erradicadas. 
Ora, se nosso problema é exatamente esse binarismo, como proponho, bastaria então resumir esta série de posts ao "gosto não se discute"? Não. Qualquer reducionismo pode ser válido apenas como referência rápida, mas na prática torna raso e reificado qualquer tipo de pensamento, induzindo mais uma vez ao binarismo. Posto que gosto não se discute, há outras coisas que podem nortear nossas reflexões, sem que haja repulsa de sua parte, meu leitor. É o que veremos em nossos próximos capítulos. Por hora, quem quiser deixar algum comentário, sinta-se à vontade. Vejam os vídeos e vamos que vamos!


continua...

05/01/2012

Vinho Lilás *


A penumbra das nove horas, sala encoberta, obscurecida, onde cintilava apenas uma tentativa de luz vinda de duas velas, já aos desmanches, borbotões de parafina em cima da mesa. As cortinas sopravam um vento chocho que mal se fazia vento, esquentava mais do que aliviava o verão-crepúsculo.  A mesa posta para dois, pratos vazios aguardando, algumas travessas aconchegando alimentos finos; a toalha, uma renda belga, chamava bastante atenção, o branco em choque com o escuro do mogno do móvel e com a treva da espera. Há uns cravos, pequenos cravos arranjados num também pequeno vaso, a sombra deles tremulando enorme na penumbra. O vinho. Tinto. Suave. Um Tawny aberto, duas taças, uma sobre a mesa, cheia, porém intacta; a outra debatendo-se no entremeio lábio-dente, deixando pingar algumas gotas finas, lilases, sobre as pernas.
 
Tudo foi muito rápido, encontros, viagens, abusos, músicas, Jeff Buckley no último volume. Alianças, véu e grinalda. Dinheiro, estabilidade, famílias de posses, conseqüentemente, empregos promissores. Beleza. E com B maiúsculo.

Mas, depois, tédio.

Os bolsos da calça e do terno revirados, ligações estranhas em horários inoportunos. Ócio, hipóteses e conjeturas. Relação tensa, discussão, discussão, discussão. Entre tanto fervor, uma gota d’água.

Então, telefonemas. Vazio. Mensagem de reconciliação, no ensejo de que ele chegue para o jantar. Sete. Oito. Nove. Nada. Sete, oito, nove vinhos, coração espremido nas mãos, sangrando um lilás turvo. Os olhos bem abertos, vista fechada. A porta. Será ele? Abraço, beijo, soco, faca? Vinho. A garrafa. Atirada ao ar, chocando-se contra a porta fechada. Perplexidade, confusão, lágrimas lilases, borbotões de parafina escorrendo. Tato à penumbra. A procura, a espera. Onde?

Onde?

(…)

O barulho de um desabar no chão, gritos desesperados. Os joelhos avermelhados, a boca entre mordidas, penitências, gole seco no vinho, pernas trêmulas, fazendo uma sombra pouca na penumbra. Uma penumbra decaída, decadente, da vida poetizada em reveses que só provam que para o amor ainda não estou pronta.


*adaptação da canção “Lilac Wine”, de Jeff Buckley, para apresentação em reunião do Clube do Conto de 19/11/2011. Tema: “Vinho”. Publicado pela primeira vez no Blog do CAIXA BAIXA.
 
Foto: http://luxuryunplugged.com/wp-content/blogs.dir/77/files/2008/04/istock_000004889034xsmall.jpg

03/01/2012

A fidelidade em debate (parte III)



Feliz 2012 a todos! Como as coisas não param nem se o mundo acabar, vamos a mais uma postagem aqui neste blog. Para começar o ano bem, eu acho, continuo com a série de discussões sobre adaptações nos mais variados segmentos artísticos, no intento de problematizar um pouco as famosas afirmações de que "adaptação boa é aquele que é fiel" ou "adaptação boa é a que não é fiel ao texto de origem (doravante chamado texto-fonte, não importando qual a expressão artítica empregada em sua composição".
Para já começar bem, trago algo um tanto incomum: em Mardock Scramble (foto 1) temos a adaptação da série de romances de Tow Ubukata para mangá e, como de praxe no japão, para o anime (em uma série de OVA, para ser mais específico). O destaque aqui não vai apenas para a dificuldade de transposição/ edição do enredo, mas da renderização de personagens e cenários. Como não há atores, o desenvolvimento da ambientação sci-fi/ cyberpunk do série fica por conta da equipe de ilustradores, o que já traz grandes problemas ao ato de adaptar, pois sua produção depende de um grupo muito extenso, tal como no cinema, mas com foco na recriação de tudo em computação gráfica.  


E o que dizer quando a adaptação busca o tom de paródia, como em As patricinhas de Beverly Hills (foto 2)? A paródia buscará outro tipo estilização com relação ao texto-fonte, descarcterizando qualquer premissa deste segundo. Entretanto, o filme foi grande sucesso, tal como o texto fonte, Emma, da Jane Austen. Cá entre nós, o feito não é muito simples, pois o humor, ainda infelizmente, é muito mal visto no mundo das artes - não me aterei aos motivos aqui, pois isto daria uma bíblia de comentários. 



Por fim, pensemos agora o exemplo de Amor em quatro atos (foto 3), que adapta canções do velho Chico (Buarque, não é o Rio São Francisco) para o formato da TV. A combinação, para início de conversa, é bastante incomum, da música, uma obra de curta duração que condesa em breves versos relação com arranjos sonoros diversos, com a TV, que, além de depender de equipes maiores em sua composição, está presa a diversos parâmetros impostos à TV, por exemplo, a censura, a aceitação do público comom àquele segmento, etc. Reparemos que uma música, apesar das diversas relações entre a letra (que nem sempre existe) e os fatores rítmicos/ melódicos/ harmônicos envolvidos, é muito mais curta (em duração física mesmo) do que o de um capítulo de série de TV, geralmente contando meia hora (a não ser que a canção seja um épico progressivo, rs.). Sendo assim, o diretor tem que desdobrar a canção em uma narrativa, o que, de cara, já o tornaria "infiel" ao texto-fonte, já que uma letra/ poema tende a não ser narrativa. Assim, cabe ao diretor fazer recortes e tentar recriar/ dialogar com a ambientação do texto-fonte de outra forma, desprendendo-se ainda mais da noção de que a qualidade está necessariamente vinculada à fidelidade.
E então mais exemplos? Comentários? Sugestões? Vocês com a palavra! 



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